Publicado por: Espaco Espiritual | terça-feira, 24 maio 2011

MORADAS DOS ESPÍRITOS

MORADAS DOS ESPÍRITOS 

Bem antigos são os registros de médiuns ou Espíritos que ditam particularidades sobre a vida extracorpórea, geralmente por eles preenchida por um colorido imaginativo e contaminada por um excessivo furor literário, muito impróprio à linguagem dos Espíritos superiores.

O Sr. Emmanuel Swedenborg, pelo que se vê, anotou em seus diários uma série de descrições fantásticas, apimentadas por sua tendência verborrágica e seu calor excessivo.

Sua obra, é claro, como era de se esperar, acumulou um número expressivo de curiosos e formou um grande círculo de adeptos.

A experiência demonstra, contudo, que antiguidade não pode sempre ser associada à veridicidade.

Respeitamos muitíssimo o Sr. Swedenborg e suas visões, sem dúvida, embora ambos pertençam ao período do Espiritualismo utópico e nebuloso.

É de se espantar que em nosso tempo ainda existam espíritas habilidosos o suficiente para projetar as descrições do Sr. Swedenborg ao título de incontestáveis, uma vez que, segundo Kardec, “Swedeborg é um desses personagens mais conhecidos de nome que de fato, ao menos pelo seu vulgo.

Suas obras, muito volumosas, e, em geral, muito abstratas, são lidas quase só pelos eruditos.

Assim a maioria das pessoas que delas falam ficaria muito embaraçada para dizer o que ele era.

Para uns, é um grande homem, objeto de profunda veneração, sem saberem por quê; para outros, um charlatão, um visionário, um taumaturgo.

Como todos os homens que professam idéias contrárias à maioria, idéias que ferem certos preconceitos, ele teve ainda os contraditores.

Se estes tivessem se limitado a refutá-lo, estariam no seu direito. Mas o facciosismo nada respeita e as mais nobres qualidades não são reconhecidas por eles, os contraditores. Swedenborg não poderia ser uma exceção.

Sua doutrina, sem dúvida, deixa muito a desejar. Ele próprio, hoje, está longe de aprová-la em todos os pontos.

“Entretanto, por mais refutável que seja, nem por isso deixará de ser um dos homens mais eminentes do seu século.” [KARDEC. Revista Espírita de fevereiro de 1859. Swedeborg.]

Respeitável e homem de manifesto caráter, sim, ninguém de bom senso o duvida. Mas não podemos dizer o mesmo quanto à infalibilidade de suas opiniões, por mais absolutas que sejam.

A codificação kardeciana afirma que “o melhor [médium] é aquele que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido o menos enganado”, assim como sentencia que, “por muito bom que [o] seja, um médium jamais é tão perfeito, que não possa ser atacado por algum lado fraco”. [KARDEC. O Livro dos Médiuns, XX, 226, 9.ª e 10.ª]

Acertada essa questão, não voltaremos mais a ela.

Há um importante centro de Porto Seguro (BA) que se tornou um exemplo dos núcleos que assumem uma postura extravagante e imprópria, porquanto um de seus membros, tomando-lhe o nome, veiculou no meio virtual uma série de idiossincrasias sobre colônias espirituais e particularidades muito esmiuçadas sobre tais moradias dos Espíritos.

Mas essa não é a única investida sobre a questão.

A Federação Espírita Brasileira, na figura do seu mais recente tradutor, ao publicar a mais recente tradução de O Livro dos Espíritos, no seu índice geral, abusa ao relacionar a palavra “colônia”, inexistente na obra, aos itens 234 a 236, que disto em absoluto não falam.

Tais questões tratam dos mundos transitórios, sem vida física, embora materiais, que servem para a “habitação transitória para os Espíritos”. Nada mais. Nenhuma palavra na obra, portanto, em relação às colônias.

Outro problema surge quando nomes ridículos são atribuídos às tais colônias: “Colônia das borboletas”, “Morada do Sol”, “Luz do Luar”, etc. etc. Tais nomes seriam mais ajustados para a indicação de hotéis materiais que aspiram abrigar turistas nas regiões praianas do Brasil.

Compactuar com esses abusos é dar armas aos nossos adversários.

Uma grave tendência sincrética de nosso movimento é absorver os elementos de outras crenças espiritualistas e, não raro, prematuros e contrários aos postulados doutrinários.

Vimos em determinadas reuniões doutrinárias a menção à “Lei de atração”, comumente confundida com o axioma eminentemente lógico do Espiritismo:

“Toda causa tem um efeito. Todo efeito inteligente possui um efeito inteligente. A grande da causa está na razão direta da grandeza dos efeitos que essa causa produz.”

A Lei de atração, tão registrada reuniões “modernas”, não corresponde a este axioma. A aproximação não pode ser feita, sob pena de leviandade.

Não discordamos, é claro, da existência dos aglomerados espirituais. A experiência histórica kardeciana prevê a existência deles em seus registros:

“Os mundos intermediários são povoados de espíritos esperando a prova da encarnação, ou aí se preparando de novo, segundo seu grau de adiantamento. Os espíritos, nesses viveiros da vida eterna, estão agrupados e divididos em grandes tribos, uns adiante, outros em atraso no progresso […]” [SÃO LUIS. Revista Espírita. Julho de 1862. Hereditariedade Moral.

Isso não deixa de encontrar, como se vê, consonância com a crença mais ou menos generalizada no movimento espírita sobre os mundos que se interpenetram.

Mas daí supor que todas as narrativas sobre tais “viveiros” são dignas de crença cega e absoluta é simples temeridade.

Emmanuel, no prefácio de Os Mensageiros, comete grave engano ao supor que André Luiz vive nos “círculos elevados do Invisível”, havendo ali, portanto, somente “vida humana sublimada”…

Nada há em Nosso Lar de sublimado. Eventos locais pagos, prisões em calabouços, fábricas de sucos, pomares, plantações, presença atuante de animais domesticados, Espíritos contraindo matrimônio não são fatos circunstanciais que possamos atribuir aos círculos de espiritualidade sublimada.

Tudo, portanto, em seu devido lugar. A literatura espírita está marcada por um novidadismo fantástico e fascinante.

Resta saber, entretanto, a extensão desses delírios para que nossa digestão não seja afetada por alimentos estragados.

Kardec desde sempre se preocupou com a atitude dos Espíritas diante das informações mediúnicas, embora essa preocupação tenha sido desprezada pelos amantes de novidades.

O critério severo para a aferição das informações espirituais foi esquecido e amesquinhado pelos espíritas desde há muito.

Importa questionarmos até que ponto nós optaremos pela ilusão de uma falsa fidelidade ao pensamento original de Allan Kardec e partiremos para uma intensa busca pela kardequização de nosso movimento.

Tais objetivos jamais poderão ser efetivados sem uma devida incorporação dos valores positivos presentes na extensa obra kardeciana em nosso cotidiano.

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