Publicado por: Espaco Espiritual | sexta-feira, 10 junho 2011

PERISPÍRITO

 

PERISPÍRITO

 

 

1. A alma só tem um corpo, e sem órgãos.

Há, no corpo físico, diversas formas de compactação da matéria: líquida, gasosa, gelatinosa, sólida. Mas disso se conclui que haja corpo ósseo, corpo sanguíneo? Existem partes de um todo; este, sim, o corpo. Por idêntica razão, Kardec se reportou tão só ao “perispírito, substância semi-material que serve de primeiro envoltório ao espírito”, [1] o qual, porque “possui certas propriedades da matéria, se une molécula por molécula com o corpo”, [2] a ponto de ser o próprio espírito, no curso de sua evolução, que “modela”, “aperfeiçoa”, “desenvolve”, “completa” e “talha” o corpo humano. [3]

O conceito kardeciano da semi-materialidade traz em si, pois, o vislumbre da coexistência de formas distintas de compactação fluídica no corpo espiritual. A porção mais densa do perispírito viabiliza sua união intra-molecular com a matéria e sofre mais de perto a compressão imposta pela carne. A porção menos grosseira conserva mais flexibilidade e, decerto, justifica os seguintes fatos:

((1.º) o perispírito, apesar de sua união intra-molecular com este, “não é circunscrito pelo corpo, mas irradia em torno dele e o envolve como em uma atmosfera fluídica”; [4] 2.º) na emancipação da alma, essa porção menos grosseira é justo aquela “parte do seu perispírito” com a qual se afasta do corpo. [5] Se uma parte do perispírito segue com a alma, é que outra necessariamente não o faz, e isso porque só a morte restitui ao espírito sua plena liberdade, sempre parcial na emancipação, pois o princípio vital ainda existe na matéria e, assim, mantém parte do perispírito preso ao corpo. [6]

Portanto, não há corpos da alma, mas formas distintas de compactação fluídica no corpo espiritual, o que levou Kardec a dizer que o perispírito “contém ao mesmo tempo eletricidade, fluido magnético e, até certo ponto, a própria matéria inerte”. [7] Em Espiritismo, por efeito, não se fala de “corpo causal”, “mental”, “emocional”, etc. Inteligência, pensamento, vontade, memória, sentimento, todos os nossos atributos, ou faculdades, têm sede no espírito, no princípio inteligente, de quem o perispírito é só “o agente ou o instrumento de ação”, “o órgão sensitivo”. [8]

Ensinou o mestre lionês que se trata de aptidões do ser por completo, “e não apenas de certos órgãos, como nos homens”. E esclareceu que mesmo o espírito “cujo perispírito é mais denso” percebe os sons e sente os odores, “mas não por uma parte determinada do seu organismo, como quando vivo”. O perispírito, pois, não tem órgãos, até porque já constitui o órgão sensitivo do espírito; donde Kardec afirmar que, “destruído o corpo, as sensações se tornam generalizadas”, isto é, não mais “se localizam nos órgãos que lhes servem de canais”. [9]

Nada obstante, os atributos do espírito se traduzem nos fluidos; a causa puramente espiritual se torna efeito perispiritual, e até material. O pensamento não é fluido, nem matéria, mas se expressa por eles e neles, assim revelando sua natureza sã ou malsã, o que encontra resistência menor no meio fluídico e maior no meio físico.

De qualquer forma, o espírito realmente estende ao corpo sua influência mais ou menos determinante, como Kardec bem o dissera: “O perispírito representa um papel tão importante no organismo, e em uma série de afecções, que ele se liga à Fisiologia tão bem quanto à Psicologia”. [10]

Sendo um dos elementos constitutivos do homem, o perispírito desempenha importante papel em todos os fenômenos psicológicos e, até certo ponto, nos fenômenos fisiológicos e patológicos. Quando as ciências médicas tiverem na devida conta o elemento espiritual na economia do ser, terão dado grande passo e horizontes inteiramente novos se lhes patentearão. “As causas de muitas moléstias serão a esse tempo descobertas e encontrados poderosos meios de combatê-las”. [11]

2. Pode o espírito perder seu perispírito?

Em termos espíritas, o que se pode estabelecer com certeza é que a alma jamais fica definitivamente sem perispírito. O Livro dos Espíritos, 186, ensina que, sim, “há mundos em que o espírito, deixando de viver num corpo material, só tem por envoltório o perispírito”. E nos dizem mais os guias da humanidade: “[…] e esse envoltório torna-se de tal maneira etéreo que para vós é como se não existisse; eis então o estado dos espíritos puros”. Estes, portanto, têm, sim, um envoltório fluídico.

De fato, quanto ao fluido universal, ou matéria elementar primitiva, O Livro dos Médiuns, 74, quinta pergunta, diz que, “para encontrá-lo na simplicidade absoluta seria preciso remontar aos espíritos puros”. E São Luís afirma no Evangelho Segundo o Espiritismo, IV, 24: “O perispírito mesmo sofre transformações sucessivas. Eteriza-se mais e mais, até a purificação completa, que constitui a natureza dos espíritos puros”. Até aqui, tudo bem.

O Livro dos Espíritos, 187, registra que “a substância do perispírito não é a mesma em todos os globos; é mais eterizada em uns do que em outros”. Mas completa: “Ao passar de um para outro mundo, o espírito se reveste da matéria própria de cada um, com mais rapidez que o relâmpago”. E este é o ponto controverso. Trata-se do espírito com perispírito, ou do espírito em si, desconsiderado seu corpo fluídico? As formulações a seguir nos levam à segunda alternativa. Se não, vejamos.

Tomado do meio ambiente, esse envoltório varia segundo a natureza dos mundos. Ao passar de um mundo para outro, os espíritos mudam de envoltório, como mudamos de roupa ao passar do inverno ao verão, ou do pólo ao equador.[12]

Abandonando a Terra, o espírito ali deixa o seu invólucro fluídico e reveste outro apropriado ao mundo onde deve habitar. [13]

Num grau mais elevado, [o corpo] desmaterializa-se e acaba por se confundir com o perispírito. De acordo com o mundo a que o espírito é chamado a viver, ele se reveste do envoltório apropriado à natureza desse mundo. [14]

Estes dizeres, tomados à letra, de fato levam à existência de espírito sem perispírito, mas, ainda assim, tão só quando muda de mundo; lá estando, logo reveste “um outro”, e em breve lapso temporal, pois o espírito faz isso “com mais rapidez que o relâmpago”. O espírito sem perispírito é, pois, algo circunstancial, nunca definitivo. Não há, no Espiritismo, um dizer pétreo de que ele possa vir a existir permanentemente sem corpo fluídico. No máximo, verifica-se essa breve perda momentânea e, ressalte-se, por força de ascensão evolutiva, jamais por decesso da alma na maldade ou no crime, menos ainda na ignorância. [15] Outra não pode ser a perspectiva deste escrito kardeciano, publicado, é bom que se o diga vinte e um anos após a morte do mestre:

No sentido de desorganização, de desagregação das partes, de dispersão dos elementos, não há MORTE, senão para o invólucro material e o invólucro fluídico; mas, quanto à alma, ou espírito, esse não pode morrer para progredir; de outro modo, ele perderia a sua individualidade, o que equivaleria ao nada. No sentido de transformação, REGENERAÇÃO, pode dizer-se que o espírito morre a cada encarnação, para ressuscitar com atributos novos, sem deixar de ser o eu que era. Tal, por exemplo, um camponês que enriquece e se torna importante senhor. TROCARAM a choupana por um palácio, as roupas modestas por vestuários de brocado. Todos os seus hábitos MUDARAM seus gostos, sua linguagem, até o seu caráter. Numa palavra, o camponês MORREU, enterrou as vestes de grosseiro estofo, para RENASCER homem de sociedade, sendo sempre, no entanto, o mesmo indivíduo, porém TRANSFORMADO. [16]

Kardec visa, aqui, o espírito em si. É verdade. Mas nem por isso nos leva ao espírito permanentemente sem perispírito. Aliás, de forma sintomática, Kardec não fala de “morte” senão como “regeneração”; não fala de “troca”, de “mudança”, senão como “transformação”, e finda por incluir também aí o próprio perispírito:

A cada novo estágio na erraticidade, novas maravilhas do mundo invisível se desdobram diante do seu olhar, porque, em cada um desses estágios, um véu se rasga.  

 

AO MESMO TEMPO, SEU ENVOLTÓRIO FLUÍDICO SE DEPURA; TORNA-SE MAIS LEVE, MAIS BRILHANTE E MAIS TARDE RESPLANDECERÁ. 

 

É quase um novo espírito; é o camponês DESBASTADO e TRANSFORMADO. Morreu o espírito velho, mas o eu é sempre o mesmo. É assim, cremos que convém se entenda a morte espiritual.

Ao mencionar a mudança e mesmo, somente ali, a morte do perispírito, Kardec apenas e tão só o faz em contexto que contempla necessariamente as transformações ocasionadas pelo progresso da alma. Por esse motivo, sou de parecer que, por evidente assimilação, em tais casos há sentido figurado e não próprio.

Foi visto que o perispírito tem formas distintas de compactação fluídica, porções com maior e menor densidade, razão pela qual se liga molécula por molécula ao corpo e, ainda assim, não se circunscreve a este, irradia a sua volta, bem como, na emancipação, apenas parte dele segue a alma quando esta se afasta do corpo.

Se o espírito passa a outro mundo, só as porções mais identificadas com o mundo que está deixando se desagregam; somente seus elementos mais grosseiros voltam ao fluido universal desse mundo. Persistem integradas ao espírito as partes menos densas do seu invólucro fluídico, agora, mais predispostas a se articularem ao fluido universal do mundo mais adiantado a que já pode ir. É assim que “o espírito [sempre com perispírito] se reveste da matéria própria de cada mundo, com mais rapidez que o relâmpago”.

Este princípio, aliás, como se deduz da última citação kardeciana, é igualmente válido para as encarnações do espírito num mesmo mundo.

Entre uma vida e outra, pela gradativa depuração perispirítica, ele estará menos vinculado à resistência de suas identidades corporais, sempre mais persistentes nos estados de maior inferioridade. [17]

Não há, pois, para o espírito, senão a progressiva purificação do seu perispírito. Tal ideia vem confirmar estas proposições kardecianas de sentido bem mais próprio, porque isenta, aqui, da possibilidade meramente contextual de os termos assumirem qualquer figuração:

Já se disse que o espírito é uma flama, uma centelha. Isto se aplica ao espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, ao qual não saberíamos dar uma forma determinada. 

 

Mas, EM QUALQUER DE SEUS GRAUS, ELE ESTÁ SEMPRE REVESTIDO DE UM INVÓLUCRO OU PERISPÍRITO, CUJA NATUREZA SE ETERIZA À MEDIDA QUE ELE SE PURIFICA E SE ELEVA NA HIERARQUIA

 

Dessa maneira, a ideia de forma é, para nós, inseparável da ideia de espírito, a ponto de não concebermos este sem aquela. 

 

O PERISPÍRITO, portanto, FAZ PARTE INTEGRANTE DO ESPÍRITO, como o corpo faz parte integrante do homem.[18]

O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais e a sua ação sobre a matéria. Demonstrou a existência do PERISPÍRITO, da qual já se suspeitava desde a Antiguidade, e que foi designado por [São] Paulo pelo nome de corpo espiritual, isto é, CORPO FLUÍDICO da alma após a destruição do corpo tangível. Sabe-se atualmente que ESSE INVÓLUCRO É INSEPARÁVEL DA ALMA, que ele é um dos elementos que constituem o ser humano; que é o veículo da transmissão do pensamento e que, durante a vida do corpo, serve de elo entre o espírito e a matéria. [19]

Sergio Aleixo

[1] O Livro dos Espíritos, 134.
[2] A Gênese, XI, 18.
[3] A Gênese, XI, 11. Obs.: “[…] c’est l’Esprit lui-même qui façonne son enveloppe et l’approprie à ses nouveaux besoins […]”; literalmente: “[…] é o próprio espírito que conforma (configura, forma) seu envoltório e o apropria a suas novas necessidades”. Tradutores brasileiros optaram por fabrica ou modela, embora não constem do original os verbos fabriquer ou modeler. Porém, há boa sinonímia entre façonner e modeler: conformar, modelar.
[4] A Gênese, XI, 17.
[5] O Livro dos Médiuns, 119, primeira pergunta. Obs.: “Son Esprit, ou son âme, comme vous voudrez l’appeler, abandonne alors son corps, suivie d’une partie de son périsprit […]”; literalmente: “Seu espírito, ou sua alma, como vós quiserdes chamá-lo, abandona então seu corpo, seguido de uma parte de seu perispírito […]”.
[6] A Gênese, XI, 18: “Por um efeito contrário, essa união do perispírito com a matéria carnal, que se efetuara sob a influência do princípio vital do embrião, quando este princípio deixa de agir, em conseqüência da desorganização do corpo, que conduz à morte, essa união, que era mantida apenas por uma força atuante, se desfaz quando esta força deixa de agir. Então, da mesma forma como havia se unido, o perispírito se desprende, molécula por molécula, e o espírito é restituído à liberdade.
“Assim, não é a partida do espírito que causa a morte do corpo, mas a morte do corpo que causa a partida do espírito”.
[7] O Livro dos Espíritos, 257. Obs.: Na sequência, o mestre chegou a sustentar que seria o próprio perispírito “o princípio da vida orgânica”; entretanto, em A Gênese, XI, 18, Kardec deixa claro que a união intramolecular entre perispírito e corpo só ocorre “sob a influência do princípio vital do embrião”. Kardec, aliás, já dissera que o espírito, mediante seu perispírito, “transmite aos órgãos, não a vida vegetativa, mas os movimentos que exprimem a sua vontade”. (Revista Espírita. Dez/1862. Estudos sobre os possessos de Morzine. 3.ª ed., F.E.B., 2007, p. 489.)
[8] O Livro dos Médiuns, 55. A Gênese, XIV, 22.
[9] O Livro dos Espíritos, 257.
[10] A Gênese, I, 39.
[11] Obras Póstumas. Caráter e conseqüências religiosas das manifestações dos espíritos. § I — O perispírito como princípio das manifestações; n. 12.
[12] Kardec. O Livro dos Espíritos, 257.
[13] Kardec. A Gênese, XIV, 8.
[14] Espírito São Luís, O Evangelho Segundo o Espiritismo, IV, 24.
[15] Cf. Sobre André Luiz. 3.10. Esferas Ovóides e Segunda Morte.
[16] Obras Póstumas. A Morte Espiritual. 32.ª ed., F.E.B., 2002, p. 205.
[17] Ensinava o mestre: “[…] os caracteres materiais são tanto mais persistentes quanto menos desmaterializados os espíritos, isto é, menos elevados na hierarquia dos seres. Depurando-se, os traços da materialidade desaparecem à medida que o pensamento se desprende da matéria. Eis por que os espíritos inferiores, ainda presos a Terra, são, no mundo invisível, mais ou menos o que eram em vida, com os mesmos gostos e as mesmas inclinações”. (Revista Espírita. Jun/1863. Considerações Sobre o Espírito Batedor de Carcassonne. 3.ª ed., F.E.B., 2007, p. 261/62.)
[18] O Livro dos Médiuns, 55.
[19] A Gênese, I, 39. Léon Denis Gráfica e Editora 2008. Obs.: Se Kardec empregou o tratamento católico romano “saint Paul”, não há razão para que seja omitido por simples tradutores.

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