Publicado por: Espaco Espiritual | quarta-feira, 4 julho 2012

A QUEDA DO ESPÍRITO E O PROBLEMA DAS ORIGENS.

A QUEDA DO ESPÍRITO E O PROBLEMA DAS ORIGENS.

 

O Espiritismo rejeita terminantemente o conceito de queda ou involução do espírito, mesmo que se apresente com os adornos de uma pretensa modernidade.
   
Se apenas no campo genérico do espiritualismo esta ideia fosse considerada, nada me competiria dizer, pois todas as idéias que admitem no homem algo mais que a matéria ali cabe perfeitamente. Entretanto, usarei aqui de certa firmeza por se tratar de tese apresentada, em várias modalidades e por diversos autores, como complemento e até superação de Kardec, sob o falso título de Doutrina Espírita.

Defensores modernos do conceito de queda do espírito dizem, por exemplo, que o número 540 de O Livro dos Espíritos o confirmaria, dando-nos conta de que o arcanjo começou “sendo” átomo e não “no” átomo. O espírito haver-se-ia transformado em matéria quando “caiu” por causa de sua revolta primordial, congelando-se; seria, agora, a própria matéria. A evolução constituiria uma espécie de descongelamento cujo resultado seria a recuperação da pura espiritualidade perdida. Todavia, este monismo de Ubaldi e outras reedições do mito da queda angélica, como a de Roustaing, nada têm a ver com o Espiritismo.

A Doutrina Espírita, aliás, é dualista; proclama haver dois elementos gerais do universo: a matéria e o espírito, e esclarece que acima de tudo está o Criador. Deus, espírito e matéria são o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. [1] Não se trata, porém, de um dualismo cristalizado. Na visão espírita, o conjunto das coisas também se pode reduzir à unidade (monismo), senão quanto à sua substância, ao menos quanto às leis pelas quais o universo é ordenado. Os espíritos superiores registraram este princípio, que Herculano Pires chamou de “unidade seqüente”, ao dizerem: “Tudo serve, tudo se encadeia na natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo”.[2] Em sua última obra, Kardec permaneceu nesta mesma rota conceitual:

A classificação de fluidos espirituais não é rigorosamente exata, uma vez que, definitivamente, eles são sempre matéria mais ou menos quintessenciada. De espiritual, realmente, só a alma ou princípio inteligente. Essa denominação é adotada apenas por comparação e, sobretudo, pela afinidade que esses fluidos têm com os espíritos. Pode-se dizer que são a matéria do mundo espiritual, razão pela qual são chamados fluidos espirituais. [3]

Mas afirmou também o mestre: “[…] tudo se liga, tudo se encadeia no universo; tudo está submetido à grande e harmoniosa lei de unidade, desde a mais compacta materialidade até a mais pura espiritualidade”. [4]

Além disto, o que de fato está escrito no número 540 do original francês de O Livro dos Espíritos é o seguinte: “[…] depuis l´atome primitif jusquà larchange, qui lui-même a commencé par l´atome”.[5] O arcanjo, portanto, não começou “por ser” átomo,[6] e sim começou “pelo” átomo.[7] O princípio inteligente iniciou a sua evolução no átomo; ele não era o átomo nem se poderia transformar em átomo depois de se haver tornado arcanjo, isto é, puro espírito.

Num artigo de sua Revista, Kardec disse: “O Espiritismo quer ser claro para todos e não deixar aos seus futuros seguidores nenhum motivo para discussão de palavras. Por isso, todos os pontos suscetíveis de interpretação serão elucidados sucessivamente”. [8] Confirmou, então, a doutrina de seu primeiro livro, postulando que “os espíritos não retrogradam”, “de bons, não podem tornar-se maus, nem de sábios, ignorantes”. Assegurou ainda que “é errado admitir em princípio a encarnação como um castigo”, porque não é “resultado de sua falta”, mas “uma necessidade para o espírito que, realizando a sua missão providencial, trabalha seu próprio adiantamento”.

Neste mesmo artigo, o mestre chamou-nos ainda ao bom senso da seguinte proposição: “Um estudante só é graduado após ter passado por todas as classes. Suas classes são um castigo? Não: é uma necessidade, uma condição indispensável de seu progresso”. E concluiu:

Criado simples e ignorante, o espírito está, em sua origem, num estado de nulidade moral e intelectual, como a criança que acaba de nascer. Se não fez o mal, também não fez o bem. Nem é feliz, nem infeliz. Age sem consciência e sem responsabilidade. Seu estado primitivo não é, pois, um estado de inocência inteligente e raciocinada. Conseqüentemente, o mal que fizer mais tarde, infringindo as leis de Deus, abusando das faculdades que lhe foram dadas, não é um retorno do bem ao mal, mas a conseqüência do mau caminho por onde entrou.

Quando o codificador deu à publicidade o resumo do ensinamento dos espíritos superiores sobre os diversos mundos habitados, informou-nos de que, em seu estado primitivo, as almas “não são criaturas degradadas, mas crianças que crescem”. [9] Seu discípulo Delanne também disse: “Longe de sermos criaturas angélicas, decaídas; longe de havermos habitado um paraíso imaginário, foi com imensa dificuldade que conquistamos o exercício de nossas faculdades, para vencer a natureza”. [10]

No que respeita ao problema do mal, pode-se concluir que, se a sua causa está no homem, pelo mau uso do livre-arbítrio, Deus, gerando esta virtualidade no programa de suas leis, concorre indiretamente que seja, para a existência do mal. É fato. Kardec não deixou de admiti-lo: “Sendo o mal o resultado das imperfeições do homem, e sendo o homem criado por Deus, dirão alguns: ‘Se Deus não criou o mal, pelo menos a causa do mal; se ele tivesse feito o homem perfeito, o mal não existiria’.” Mas esclareceu o mestre: “Deus quis que ele fosse submetido à lei do progresso, e que esse progresso fosse fruto do seu próprio trabalho, a fim de que ele tenha o mérito, da mesma maneira que a responsabilidade do mal que é praticado por sua vontade”. [11]

Em tempo, registre-se que a este seu texto Kardec aditou nota de rodapé citando trecho de A Razão do Espiritismo, do juiz Bonnamy, cuja parte final não consta das edições brasileiras, por desmascarar a tese rustenista da queda do espírito. Ali se diz que a alma humana, caso tivesse sido criada perfeita, não o haveria sido à “imagem” de Deus, mas “semelhante” a este, e, se assim houvera acontecido:

Conhecendo todas as coisas em razão de sua própria essência e sem haver aprendido nada, movida por um sentimento de orgulho nascido da consciência de seus divinos atributos, ela teria sido arrastada a negar sua origem, a desconhecer o autor da sua existência, em estado de rebelião, de revolta contra o seu Criador. [12]

Convenhamos em que, se exclusivamente pelo mérito não fosse a alma levada à perfeição a que se destina, haveria, da parte de Deus, uma nefanda ditadura sobre azêmolas passivas, completa ausência do mais sábio de seus institutos. Razão pela qual nos ensinaram os espíritos superiores: “Podendo o homem escolher entre o bem e o mal, a prova tem por fim colocá-lo ante a tentação do mal, deixando-lhe todo o mérito da resistência”. [13]

Disto não se deve concluir, entretanto, que a prática do mal seja fatalidade. Foi Kardec instruído no conceito de que não é necessário que os espíritos passem pela experiência do mal para chegarem ao bem. Para todos eles, sem exceção, a experiência necessária e, portanto, verdadeiramente fatal, não é a experiência do mal, e sim a da ignorância. [14]

Daí a questão 133 da obra-base: “Os espíritos que, desde o princípio, seguiram o caminho do bem, têm necessidade da encarnação?”. Ao que se responde de forma totalmente contrária à queda do espírito: “Todos são criados simples e ignorantes e se instruem através das lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer feliz a uns, sem penas e sem trabalhos, e, por conseguinte sem mérito”.

Kardec teve ainda a intrepidez de perguntar: “Por que Deus permitiu que os espíritos pudessem seguir o caminho do mal?”. E a resposta deveria pulverizar a pretensão de quase tudo explicar acalentada por pensadores mais incautos: “Como ousais pedir a Deus conta de seus atos? Pensais poder penetrar os seus desígnios? Entretanto, podeis dizer: A sabedoria de Deus se encontra na liberdade de escolha que concede a cada um, porque assim cada um tem o mérito de suas obras”. [15]

O mesmo se depreende desta pergunta de Kardec: “Por que o mal se encontra na natureza das coisas? Falo do mau moral. Deus não poderia criar a humanidade em melhores condições?”. Ao que lhe responderam os espíritos superiores:

Já te dissemos: os espíritos foram criados simples e ignorantes. Deus deixa ao homem a escolha do caminho: tanto pior para ele se seguir o mal; sua peregrinação será mais longa. Se não existissem montanhas, não compreenderia o homem que se pode subir e descer, e se não existissem rochas, não compreenderia que há corpos duros. É necessário que o espírito adquira experiência, e para isso é necessário que ele conheça o bem e o mal; eis por que existe a união do espírito e do corpo. [16]

Assim, a codificação kardeciana ensina ser fatal a ignorância, não o mal propriamente; diz que é preciso encarnar para conhecer o mal, não para necessariamente praticá-lo, pois “nenhum espírito recebe a missão de fazer o mal; quando ele o faz, é pela sua própria vontade”. [17]

Então, antes de nos conscientizarmos do bem e do mal, por mais relativos, o que há são aquisições iniciais de experiência para a alma, porque “sua inteligência apenas desabrocha: ela ensaia para a vida”; [18] nossas deliberações, aí, não são boas nem más de fato. É aplicável a esse momento evolutivo a dita do apóstolo Paulo: “O pecado não é levado em conta quando não existe lei”. [19]

A gradativa maturação da consciência no espírito é que torna possível uma progressiva percepção das leis morais, ensejando a atribuição de valores mais ou menos adiantados a deliberações e experiências, sobretudo as mais recentes. Porém, as mais remotas e primitivas, agregadas na vizinhança daquela “nulidade moral e intelectual”, a que se referira Kardec, constituem forçosa etapa do desenvolvimento da alma; representam os primeiros estímulos do que o mestre definiria, já ao fim de sua missão, como o germe ou princípio do bem que nela há, aduzindo que isto “deve fazê-la triunfar das imperfeições inerentes ao seu estado de inferioridade na Terra”. [20] Trata-se, pois, de nossa virtual perfeição de filhos de Deus. Neste trajeto evolutivo se consolida em nós outro instituto da divina sabedoria, irmão gêmeo do mérito: a responsabilidade.

Salvador Gentile, não satisfeito com a instrução kardeciana, acresceu-lhe três palavras inexistentes no original francês, o que resultou nesta aberração filosófica: “A alma humana, emanação divina, leva nela o germe ou princípio do bem e do mal (sic) que é seu objetivo final, e deve fazê-la triunfar das imperfeições inerentes ao seu estado de inferioridade sobre a Terra”. [21]

O que conduz algumas doutrinas ao erro é o ímpeto destemperado de tudo pretenderem explicar acerca da natureza essencial das coisas, não levando em conta nossas naturais limitações. Todavia, os espíritas estudiosos e sérios, os mais devotados à obra kardeciana, estão bem premunidos quanto a isto. O codificador já avisara que mesmo “os espíritos que podemos considerar adiantados ainda não puderam sondar a natureza da alma”, no sentido de sua constituição mais elementar. Exortou-nos, pois, à cautela: “Como poderíamos fazê-lo?”. E por fim salientou:

É uma perda de tempo perscrutar o princípio das coisas que, como ensina O Livro dos Espíritos (ns. 17 e 49), pertence aos segredos de Deus. Pretender descobrir, por meio do Espiritismo, o que ainda não é do alcance da humanidade, seria desviá-lo do seu verdadeiro objetivo, fazer como a criança que quisesse saber tanto quanto o velho. O essencial é que o homem aplique o Espiritismo no seu aperfeiçoamento moral. O mais é curiosidade estéril quase sempre orgulhosa, cuja satisfação não o faria avançar sequer um passo. O único meio de avançar é tornar-se melhor. Os espíritos que ditaram o livro que lhes traz o nome provaram a própria sabedoria, ao respeitarem, no tocante ao princípio das coisas, os limites que Deus não nos permite passar, deixando aos espíritos sistemáticos e presunçosos a responsabilidade das teorias prematuras e errôneas, mais fascinantes do que sérias, e que um dia cairão ao embate da razão, como tantas outras oriundas do cérebro humano. Só disseram o justamente necessário para que o homem compreenda o seu futuro e assim encorajá-lo na prática do bem. [22]

Inspiremo-nos na sábia humildade de Kardec. Não nos entreguemos a sistemas vãos, que carregam a sina do fracasso e do esquecimento.

Submisso aos “guias da humanidade em marcha”,[23] disse o mestre já em sua última obra:

O homem, cujas faculdades são limitadas, não pode compreender nem abranger o conjunto dos desígnios do Criador. Ele julga as coisas do ponto de vista da sua personalidade, dos interesses artificiais e de convenções que ele criou para si e que não se enquadram na ordem da natureza.

Eis por que ele acha ser mau e injusto aquilo que consideraria justo e admirável se conhecesse a sua causa, o seu objetivo e o resultado final. Procurando a razão de ser e a utilidade de cada coisa, o homem reconhecerá que tudo traz a marca da sabedoria infinita, e se inclinará diante dessa sabedoria, mesmo para as coisas que ele não compreenda. [24]

Nesta nota de Kardec a um texto de sua Revista, vemos ainda mais a sabedoria do mestre-escola de Lyon:

Se há um mistério insondável para o homem, é o princípio e o fim de todas as coisas. A visão do infinito lhe dá vertigem. Para compreendê-lo, são necessários conhecimentos e um desenvolvimento intelectual e moral que está longe de possuir ainda, mal grado o orgulho que o leva a julgar-se chegado ao topo da escala humana. Em relação a certas idéias, ele está na posição de uma criança que quisesse fazer cálculo diferencial e integral antes de saber as quatro operações. À medida que avançar para a perfeição, seus olhos abrir-se-ão à luz, e a névoa que os cobre se dissipará. Trabalhando seu melhoramento presente, chegará mais cedo do que se perdendo em conjecturas. [25]

Deste modo, falecem todas as pseudossuperações de Kardec pela falsa razão de mais devassarem o que, por ora, é simplesmente impenetrável.

Para o Espiritismo, os problemas da origem, da finalidade última e do mal permanecem, portanto, sem uma solução terminante, pois não se prendem ao advento de qualquer conhecimento científico ou filosófico, mas ao desenvolvimento, em nós, espíritos, do sentido que nos falta para compreendermos a natureza íntima de Deus, o mistério da Divindade, o que só se verificará, segundo O Livro dos Espíritos, 10, 11, 113, 169, 226, 562, ao adquirirmos a soma de perfeição de que a criatura é suscetível, ao chegarmos ao nosso estado definitivo, de infalibilidade intelecto-moral.

Deus não quis que a matéria fosse espírito e vice-versa, mas fez necessária a união do espírito e da matéria, “para dar inteligência a esta”. [26] Não podemos abarcar o conjunto dos desígnios do Criador; todavia, ele apenas está a nos dizer: “Por enquanto, não! Porém, quando não mais tiverdes o espírito obscurecido pela matéria; quando, pela vossa perfeição, vos houverdes aproximado de mim, finalmente, vós me vereis e compreendereis”. [27]

Certos autores que postulam a tese da queda espiritual sob o falso título de Espiritismo chegam ao extremo de distorcer o sentido da resposta dos espíritos superiores à questão 540 da obra-base da doutrina, a fim de ressaltarem o que seria o “acanhado espírito” de Kardec para “apreender, em seu conjunto, a admirável lei de harmonia” que preside o processo evolutivo “desde o átomo primitivo até o arcanjo”. Segundo eles, o codificador “não tinha o conhecimento acerca da ciência e da revelação, em espírito e verdade, para apreender” esta lei de harmonia. Este conhecimento só teria vindo mediante Darwin, Einstein e Ubaldi. [28]

Estes pensadores eram de fato inteligentíssimos. Os dois primeiros, particularmente geniais. Mas nenhum é comparável a Kardec! A verdade é que a ciência talvez deva mais a Wallace do que a Darwin. O primeiro supôs verdadeiras as intervenções espirituais no mundo “natural”, e foi por isto duramente criticado por Darwin, que o acusava de querer “matar uma criança no berço”.

Quanto a Einstein, embora louvado por alguns religiosos mais afoitos, chegou a dizer em 1929: “Acredito no Deus de Espinosa, revelado na harmonia de tudo o que existe, mas não em um Deus que se preocupa com o destino e as ações dos homens”. [29] E mais recentemente, veio a público uma carta sua, de 1954, ao filósofo alemão Eric Gutkind, em que Einstein afirma:

“A palavra Deus para mim é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana […] a religião judaica, como todas as outras, é a encarnação de algumas das superstições mais infantis […]”. [30]

Quanto a P. Ubaldi, no VI Congresso Espírita Pan-Americano, de 1963, dando provas de que nada sabia do Espiritismo, chegou a dizer que este se poderia tornar uma religião universal, desde que se apoiasse sobre vastas bases científicas e racionais. [31] Como se Kardec já não o houvesse providenciado em pleno século 19.

Em Descida dos Ideais, Ubaldi afirmou, com ares de inventor da roda, que é necessário unificar o pensamento humano, fundindo as verdades científicas, racionalmente demonstradas, com as verdades intuitivas universais das religiões, complementares das científicas, mas não demonstradas racionalmente. [32] Como se Kardec jamais houvesse dito que a existência, sobrevivência e individualidade da alma, principal verdade intuitiva universal das religiões, tem no espiritualismo sua demonstração teórica e dogmática e, no Espiritismo, sua démonstration patente, porque experimental, analítica, perfeitamente racional.[33] Não foi, pois, sem motivos que Herculano Pires afirmou: […] faltou a Ubaldi a percepção necessária para captar o processo espírita em suas verdadeiras dimensões. […] revela absoluta falta de acuidade e de compreensão da realidade espírita no mundo de hoje, aonde o Espiritismo vem cumprindo serenamente a sua finalidade. A sua crítica ao Espiritismo coincide com a dos adeptos menos instruídos na doutrina, e pode ser respondida, ponto por ponto, por qualquer adepto de inteligência e cultura medianas, que conheça a Doutrina Espírita. […] o oferecimento de suas obras ao Espiritismo revela desconhecimento da natureza da nossa doutrina e das exigências metodológicas para a aceitação da proposta, que não cobre essas exigências. Ubaldi desenvolveu suas faculdades mediúnicas à margem do Espiritismo. Seu primeiro livro, Grande Síntese, apresenta curioso paralelismo com o Espiritismo, o que lhe valeu a simpatia e a amizade dos espíritas brasileiros. Na Itália ou no Brasil, porém, Ubaldi recusou-se sempre a integrar-se no Movimento Espírita, filiando-se na península à corrente da Ultrafânia, do prof. Trespioli, que pretende haver superado a concepção espírita. Em seu livro As Noures, Ubaldi nos oferece a concepção ultrafânica da mediunidade, na qual enquadra o seu caso pessoal. É uma pretensiosa concepção de mediunidade cósmica, fugindo à naturalidade e simplicidade das comunicações espirituais entre espíritos desencarnados e médiuns. As pretensões de Ubaldi o transformaram, de simples médium em autor messiânico, agora arvorado em reformador do Espiritismo. [34]

Assim como Roustaing “sentiu”, após ler O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, “a necessidade de uma revelação nova, de uma revelação da Revelação”, só porque “tudo [lhe] pareceu obscuro sobre a origem e a natureza espirituais de Jesus”, [35] Ubaldi chegou à conclusão de que “a atual filosofia espírita é limitada e não nos dá uma visão completa do todo”, por não “esclarecer acerca das primeiras origens do universo e do plano geral da criação”. Ele afirmou que estes “não são problemas longínquos, porque, sem conhecer a primeira fonte de tudo, não se pode conhecer a razão pela qual o nosso mundo está feito dessa maneira e não de outra”. [36]

De tão pretensioso, Ubaldi chega mesmo a ser ingênuo. A superioridade do Espiritismo em relação a tais doutrinas é, por estas e outras, evidente. Ubaldi pode aprender com o sacerdote Allan Kardec o seguinte preceito dos antigos celtas: “Três forças da existência: não poder ser de outro modo, não ser necessariamente outra e não poder ser melhor pela concepção; nisto está a perfeição de todas as coisas”.[37]

Em face dos alcances da sabedoria da obra de Kardec, a Ubaldi e, antes dele, a Roustaing, só havia restado a inútil tentativa de abordar o insondável. Todo o resto já tinha sido feito pelo gênio lionês.

Roustaing e Ubaldi deram provas de que estavam sob a inspiração de espíritos sistemáticos e presunçosos, pseudossábios. Confundir os adeptos mais incautos da terceira revelação, afastando-os da segurança do legado kardeciano, certamente foi um dos objetivos de tais entidades, porque suas doutrinas não se limitaram a um legítimo espaço espiritualista, antes visaram o edifício espiritista para minar-lhe as fundações e subverter-lhe a ordem doutrinária.

O programa do rustenismo, do ubaldismo e de muitos catolicismos mal resolvidos é apenas copiar, pobremente falsificados, os sábios roteiros da codificação kardeciana, tentando seu impossível ajuste a uma revolta enrustida contra a presença natural da dor, da morte e do mal na ordem divina da criação. Deveriam permanecer no campo do espiritualismo, sem invadir o território do Espiritismo. No entanto, se estas fronteiras no passado foram bem demarcadas pela competência de Kardec, nem sempre são hoje devidamente vigiadas pelos beneficiários de seus esforços missionários. Um grande número de intrusos tem sido permitido em nossas cidadelas e, por causa de tanta negligência disfarçada de tolerância, há custado muito caro à Doutrina Espírita.

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