Publicado por: Espaco Espiritual | quarta-feira, 4 julho 2012

LÉON DENIS, EMMANUEL E AS ALMAS GÊMEAS.

LÉON DENIS, EMMANUEL E AS ALMAS GÊMEAS.

  

Disse Kardec em O Livro dos Espíritos, 202: “Os espíritos encarnam-se homens ou mulheres, porque não têm sexo.

Como devem progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, oferece-lhes provas e deveres especiais, e novas ocasiões de adquirir experiências.

“Aquele que fosse sempre homem, só saberia o que sabem os homens”.

E mais, 303-a:

“A teoria das metades eternas é uma imagem que representa a união de dois espíritos simpáticos.

É uma expressão usada até mesmo na linguagem vulgar, e que não deve ser tomada ao pé da letra.

Os espíritos que dela se servem não pertencem à ordem mais elevada.

“A esfera de suas ideias é necessariamente limitada, e exprimem o seu pensamento pelos termos de que se teriam servido na vida corpórea”.

Entretanto, Léon Denis e Emmanuel discordaram de Kardec e dos guias da humanidade.

Em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, XIII, aduziu o primeiro: “Cremos de preferência, de acordo com os nossos guias, que a mudança de sexo, sempre possível para o espírito, é, em princípio, inútil e perigosa.

Os espíritos elevados reprovam-na. [“…] Quando um espírito se afez a um sexo, é mau para ele sair do que se tornou a sua natureza”.

O druida da Lorena tentou justificar sua tese de que a mudança de sexo não seria uma necessidade (só a admite por expiação) alegando que essa troca prejudicaria as “almas-irmãs, criadas aos pares, destinadas a evoluírem juntas, unidas para sempre na alegria como na dor”, almas que, segundo ele, “realizam a forma mais completa, mais perfeita da vida e do sentimento e dão às outras almas o exemplo de um amor fiel, inalterável, profundo”. Léon Denis assegurou ainda que o número dessas “almas-irmãs” seria “mais considerável do que geralmente se crê”.

A tese das almas gêmeas, ou irmãs, é mera variante da teoria das metades eternas, por lhes ser ínsito o mesmo fatalismo da predestinação. 

 

Denis veiculou uma idéia injusta, além de haver incidido em mais uma doutrina contrária ao Espiritismo: almas seriam criadas aos pares, cujo amor serviria de exemplo a outras almas, portanto as últimas não teriam seus respectivos pares, já que o número das primeiras seria mais considerável do que geralmente se crê, ou seja, esse número, de uma forma ou de outra, não constituiria a totalidade das almas criadas, segundo Denis.

De outro lado, sem negar a necessidade da mudança de sexo para que os espíritos progridam em tudo, Emmanuel confirmou a doutrina das almas gêmeas, tão só com a diferença de havê-la generalizado, estendendo o número delas à totalidade das almas humanas (exceto Jesus).

 

Assim, ensinou que “cada coração possui no Infinito a alma gêmea da sua, companheira divina para a viagem
à gloriosa imortalidade”. Essas almas, segundo Emmanuel, foram “CRIADAS UMAS PARA AS OUTRAS”, no que só repete Denis.[1]

Trata-se de mera variante da teoria das metades eternas.

Inútil fora defendê-los com eufemismos que distorçam o que propalaram e façam supor que só se hajam reportado à intensa afinidade entre certas almas.

Denis e Emmanuel afirmam uma predestinação desde sempre rejeitada pelo Espiritismo.

Eis o fato!

Se não, vejamos ainda mais O Livro dos Espíritos, 298:

“As almas que devem unir-se estão predestinadas a essa união, desde a sua origem, e cada um de nós tem, em alguma parte do universo, a sua metade, à qual um dia se unirá fatalmente?

– “Não; não existe união particular e fatal entre duas almas”.

E arremata Kardec na obra-base, 303-a:

“É necessário rejeitar esta idéia de que dois espíritos, CRIADOS UM PARA O OUTRO, devem um dia fatalmente reunir-se na eternidade, após terem permanecido separados durante um lapso de tempo mais ou menos longo”.

A concepção, portanto, de almas criadas pela metade, ou aos pares, mas sempre ou eventualmente umas para as outras, com a prévia finalidade de um dia se unirem eternamente, conservem ou não a individualidade após isso, não é aceita pelo Espiritismo. 

 

Não importa o viés lexical!

Sejam metades eternas, ou almas gêmeas, subsistem em ambas as teses o mesmo vício de uma suposta predestinação mútua de dois seres desde a sua origem, o que foi repelido por O Livro dos Espíritos.

Emmanuel ainda foi mais além. Condicionou o amor que sentiremos um dia pela humanidade inteira à prévia realização desse amor de almas gêmeas, que define como uma união, uma dada integração no plano espiritual, em que, por fim, elas “se reúnem para sempre na mais sublime expressão de amor divino, finalidade profunda de todas as cogitações do ser, no Dédalo do destino”. [2]

O indagador da Federação Espírita Brasileira, menos preocupado com o fato de essa doutrina carecer de fundamento em Kardec do que por não ter base nem mesmo em Roustaing, perguntou, então, sobre a alma gêmea de Jesus.

A resposta evasiva de Emmanuel foi que seria “injustificável” um paralelismo entre o Cristo e “os meios humanos”, porque “observamos em Jesus a finalidade sagrada dos gloriosos destinos do espírito”.[3] 

 

Mas se é também essa a nossa própria destinação, por que seria injustificável o paralelismo entre Jesus e os meios humanos? Como Jesus chegou a ser quem é?

Não foi por encarnações humanas, ainda que noutros mundos há muito preexistentes ao nosso?

Emmanuel advogou que o Mestre só teria enlaçado, “no seu coração magnânimo, com a mesma dedicação, a humanidade inteira, depois de realizar o amor supremo”. [4] Todavia, que amor foi esse, depois da realização do qual Jesus passou a amar a humanidade inteira com a mesma dedicação?

 Como previsto no número 326 de O Consolador:

“O amor das almas gêmeas é aquele que o espírito sentirá um dia pela humanidade inteira”.

Dir-se-ia que Emmanuel admitiu, assim, a prévia realização do amor de Jesus e de sua alma gêmea; depois disso, o Cristo passou a sentir esse amor pela humanidade toda.

Mas não! O guia de Chico Xavier excepcionou Jesus de tal situação; entende que ele evoluiu “em linha reta” e, por isso, em meios não humanos, o que, indubitavelmente, faz parte do programa de crenças Rustenistas.

Sobre o Cristo, o que diz a Doutrina Espírita?

— l’Esprit pur par excellence: “o Espírito puro por excelência”, portanto, de “superioridade intelectual e moral absoluta, em relação aos espíritos das outras ordens”.[5]

Em Espiritismo, todos os seres têm o mesmo “ponto de origem” e o mesmo “destino”. [6] 

 

Jesus não foi exceção.

Mas quem poderia saber se cometeu erros na estrada evolutiva?

E que importância afinal teria agora isso, se os que chegam ao grau supremo, mesmo passando pelo mal, são contemplados com idêntico olhar por Deus, que a todos ama igualmente?[7]

Possível é que o Mestre seja daqueles espíritos que, desde o princípio, seguiram o caminho do bem. [8]

Mas O Livro dos Espíritos chama isso de evolução “EM LINHA RETA”?

O que nos autoriza a supor que essa expressão equivale ao que ensinou a obra-base?

O que quer dizer: “desde o princípio”?

Essa expressão usada por Emmanuel pertence a Os Quatro Evangelhos, de Roustaing: “avançar com passo firme e EM LINHA RETA para a perfeição”, [9] o que ratifica a identidade do guia de Chico Xavier com essa obra defensora de uma progressão espiritual que dispensaria a vida na matéria aos que só fazem o bem nos mundos fluídicos próprios à humanização da alma, chamados ad-hoc.

A encarnação não passaria de excepcional castigo aos culpados que por lá faliram: seria uma “queda”.

A Doutrina Espírita, porém, ensina que seguir “desde princípio” o caminho do bem “não isenta os espíritos das penas da vid corporal”, porque “TODOS são criados simples e ignorantes e se instruem através das lutas e atribulações desta vida; Deus, que é justo, não podia fazer feliz a uns, sem penas e sem trabalhos, e, por conseguinte sem mérito.” [10]

A palavra “princípio” não se refere, pois, só aos mundos materiais, antes da suposta queda do espírito, nem tampouco se distinguiria, por isso, de “origem”, como querem as ginásticas verborrágicas de alguns Rustenistas fanatizados.

Kardec diz que “os espíritos, na sua ORIGEM, se assemelham a crianças, ignorantes e sem experiência”. [11] Questiona como podem, “em sua “ORIGEM, quando ainda não têm a consciência de si mesmos, ter a liberdade de escolher entre o bem e o mal”, e se lhe responde que “o livre-arbítrio se desenvolve à medida que o espírito adquire consciência de si mesmo”.[12]

Neste ínterim, pergunta Kardec “por que Deus permitiu que os espíritos pudessem seguir o caminho do mal” [13] e, sem solução de continuidade, indaga logo após:

“Havendo espíritos que, desde o PRINCÍPIO, seguem o caminho do bem absoluto, e outros os do mal absoluto, haverá gradações, sem dúvida, entre esses dois extremos?”.

Resposta: “Sim, por certo, e constituem a grande maioria”.

“Princípio” e “origem” são utilizados como sinônimos, e relacionados, é claro, ao “início” da fase humana de evolução da alma. 

 

O Livro dos Espíritos, 133, repele, assim, a tese da queda, ao assegurar que seguir desde o princípio o caminho do bem não isenta os espíritos das penas da vida corporal, entendimento confirmado mais adiante, 634: 

 

“É necessário que o espírito adquira experiência, e para isso é necessário que ele conheça o bem e o mal; eis por que existe a união do espírito e do corpo”.

Incluída aí está à dualidade espírito-matéria, sem a qual não se desenvolveria o livre-arbítrio e a consciência de si no espírito.

A doutrina de O Livro dos Espíritos, portanto, não abriga de nenhuma forma o conceito rustenista de evolução “em linh reta”, porque esse simplesmente dispensa a vida na matéria, razão pela qual teria sido meramente fluídico o corpo de Jesus, doutrina repelida por Kardec. [14]

Quando Emmanuel diz que o Cristo evoluiu em meios não humanos, nega, indubitavelmente, a materialidade do corpo que Jesus assumiu na Terra; trata-se de uma profissão de fé neodocetista e, portanto, rustenista.

Emmanuel também revela seu rustenismo quando diz que, exceto Jesus, somos “espíritos que se resgatam ou aprendem nas experiências humanas, após as quedas do passado”. [15] 

 

As quedas pretéritas, assim atribuídas tanto aos que “aprendem”, como aos que “se resgatam”, é uma generalização errônea, pois “a expiação serve sempre de prova, mas prova nem sempre é uma expiação”. [16] 

 

Nem todos os que aprendem em meio a provas têm, pois, erros a resgatar. 

 

Se Emmanuel advoga que todos os têm, confirma as quedas que precipitariam na matéria os falidos da concepção de Os Quatro Evangelhos.

E isso mais se evidencia na sua idéia sobre provação: seria para o “rebelde” e “preguiçoso”, e a expiação, para o “malfeitor que comete um crime”.[17]

Quanto à expiação, vá lá, que seja; mas se é impossível chegar à perfeição sem provas, seríamos, de antemão, rebeldes e preguiçosos pelo simples fato de sofrê-las?

Outra evidência do rustenismo de Emmanuel está na pergunta sobre a queda do espírito. 

 

Diz que a alma é “colocada por Deus no caminho da vida como discípulo que TERMINA os estudos básicos”. [18]

Como pode ser isso se O Livro dos Espíritos, 190, leciona que, em sua primeira encarnação, a alma “ensaia para a vida”? Trata-se, pois, do início dos estudos básicos da alma, não de seu término. 

 

Emmanuel, então, imagina que iniciamos nossos estudos básicos sem o concurso da matéria, nos mundos ad-hoc de Roustaing, nos quais falimos e, por essa razão, na matéria agora nos encontramos, só para terminá-los, como se isso fosse uma excepcionalidade punitiva.

Só o pressuposto rustenista da queda original do espírito na matéria, por castigo, explica certos ensinos de O Consolador.

Como podem, assim, ter base em Kardec?

Foi mesmo Emmanuel quem tanto discordou da codificação espírita?

Mas é o nome dele, bem como o de Chico Xavier, que está nas capas dos livros. 

 

De mais a mais, se a evolução em linha reta e a queda são rustenismo, a existência de almas gêmeas, [19] a procedência “capelina” do exílio espiritual que deu origem à raça adâmica “há muitos milênios”, a superioridade do planeta Marte sobre a Terra, etc., não foram ensinadas a Roustaing. [20]

Estranho é que se clame pela autoridade do mestre francês e se publiquem obras mediúnicas cujos conteúdos lhe subvertam acintosamente os princípios codificados.

Extrema é a hora espírita neste mundo.

Valha-nos O Espírito de Verdade!

Realmente, consta que Emmanuel teria dito a Chico Xavier que deveria permanecer com Jesus e Kardec caso lhe aconselhasse algo em desacordo com as palavras de ambos. [21]

Mas nenhum ensino contrário a Kardec deixou de ser publicado por essa razão.

Eis o fato. [22]

Como eu disse no Primado de Kardec, cap. 13, é de mais consistente lógica e de melhor proveito à clareza analítica que se atribua ao próprio Emmanuel tudo aquilo que dos seus livros conste. 

 

Só Chico Xavier teve o poder de dirimir as dúvidas, mas nunca o fez, nunca levantou uma suspeita sequer sobre a F.E.B.; ao contrário, não é difícil encontrar-lhe pronunciamentos com os mais efusivos aplausos à Casa do “Anjo” Ismael, assim como ao grande J. Herculano Pires, maior opositor do rustenismo febiano.

O médium sempre aparece ao lado de todos os partidos.

Aprendizes em Espiritismo sabem que o primeiro critério da verdade é submeter as comunicações dos espíritos ao controle severo da razão, do bom-senso e da lógica. 

 

Só espíritos enganadores, que não podem senão perder com esse exame sério, é que evitam a discussão e querem ser acreditados sob palavra. [23]

Aprendizes em Espiritismo igualmente sabem que o segundo critério da verdade está na concordância, na universalidade do ensinamento espiritual, no fato de um princípio ser ensinado em vários lugares, por diferentes espíritos e médiuns estranhos uns aos outros, “e que não estejam sob a mesma influência”. [24]

A única expressão de universalidade desse ensino espiritual sempre foi a Obra de Kardec.

Depois dela, tudo mais são opiniões isoladas.

Na falta em que nos encontramos, desde 31/03/1869, de um foco legítimo de apuração e controle, tais opiniões devem sofrer detidas avaliações lógicas, firmemente amparadas nos ensinos codificados pelo mestre lionês.

Quanto às almas criadas umas para as outras, Emmanuel tentou em vão defender-se, dizendo que não se referiu a metades eternas; contudo, pediu para ser conservada no livro “a humilde exposição relativa à tese das almas gêmeas”, na qual assevera que os ascendentes do amor entre elas, por serem mais profundos, diferenciam-se daqueles entrosados nas humanas concepções, que se modificam na esteira evolutiva.

Segundo Emmanuel, trata-se de “tese mais complexa do que parece ao primeiro exame”, que “sugere mais vasta meditação às tendências do século”, no que concerne ao “divorcismo”, ao “pansexualismo”, etc.

A verdade é que não basta modificar a terminologia “metades eternas”, para conservar, ainda assim, o núcleo vicioso de sua doutrina, que é a noção de predestinação mútua de duas almas desde a sua origem.

Aprende-se na obra-base que “a simpatia que atrai um espírito para outro é resultado da perfeita concordância de suas tendências, de seus instintos, e da igualdade dos seus graus de elevação”, [25] o que explica o entrosamento incomum entre certos casais e torna desnecessária a ideia das almas gêmeas, cujo erro não está em serem almas afinadas, mas em terem sido, segundo Emmanuel, “criadas umas para as outras”. [26]

Quanto a isso ser um preventivo contra o divorcismo, o pansexualismo, etc., bastaria a compreensão das leis morais da Parte III de O Livro dos Espíritos.

A tese de que teríamos uma alma preposta à nossa, criada especialmente para nos acompanhar na jornada evolutiva, nada tem a ver, portanto, com os termos kardecianos do Espiritismo, e Deus nos acuda se os termos do Espiritismo não puderem mais ser os kardecianos!

Léon Denis e Emmanuel, nesse caso, formularam hipóteses pessoais, meras opiniões sem qualquer fundamentação mais consistente e que não se enquadram, de forma nenhuma, na Doutrina Espírita.

Por essas e por outras é que Kardec não voltou mesmo; não pode ter voltado!

Ao sairmos da leitura kardeciana para a de outros autores, encarnados ou não, o sentimento é de abismal queda.

O gênio de Lyon não foi excedido por ninguém!

Até “sucessores” desfiguraram noções espíritas as mais legítimas.

Cumpre-nos distinguir esses pontos em nossas leituras, que não deixam, só por isso, de serem obrigatórias.

A identidade doutrinária kardeciana do Espiritismo, porém, é a única hígida o suficiente para mantê-lo em certeira rota.

Sergio Aleixo

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