Publicado por: Espaco Espiritual | segunda-feira, 13 agosto 2012

FALSO CONCEITO DE ESPIRITISMO

FALSO CONCEITO DE ESPIRITISMO. 

Chamo falso conceito de Espiritismo à errônea interpretação ou compreensão equivocada que muitas pessoas têm de sua filosofia no que se refere a seu aspecto moral e sociológico.

E é sobre este ponto que desejo fazer refletir as pessoas estudiosas que, animadas de um nobre propósito de redenção humana, desejam que nossa ideologia abra caminho através de tantas misérias e preconceitos morais e seja apreciada em seu verdadeiro valor filosófico, incitando que a reta interpretação de sua doutrina moral e sociológica tenha para a humanidade e para seus ideais superiores mais importância que a compreensão científica de seus fenômenos que, por ser de mais difícil alcance, só é acessível e de maior interesse a um número – por desgraça bastante reduzido – de estudiosos.

Muitas pessoas, ainda que conhecendo relativamente o Espiritismo e apesar, em alguns casos, de sua erudição, dão-lhe um significado moral e sociológico completamente falso e que não pode se chocar com o verdadeiro conceito filosófico que emana de seus feitos e de seus postulados e com as aspirações ideológicas para elevar o nível moral e social dos indivíduos e dos povos, impulsionando-os para uma era de paz, amor e justiça.

Logicamente, mais que qualquer outra tendência ideológica, cabe ao Espiritismo – dado seu conhecimento científico e espiritual do homem – trabalhar pelo advento de uma sociedade melhor, desvencilhando os homens de suas paixões baixas, de seus preconceitos e interesses mesquinhos, por serem estes os que dão origem aos mais nocivos dos materialismos e servir de apoio a um sem fim de iniquidades, de crimes e de vícios que geram e se desenvolvem no seio da sociedade, mas que são suscetíveis de desaparecer, ou pelo menos diminuir, instruindo racionalmente, sem sofismas nem acomodações, nossa moral e a sociologia que dela emana.

Infelizmente, os detratores de nossa filosofia e os simplistas, sem lógica nem discernimento, que vegetam à sua sombra, creem, ou se empenham em fazer crer, que o Espiritismo é uma doutrina de conveniência, de acomodação ao meio social e econômico, de conformismo com todas as indecisões e circunstâncias da vida, de sujeição aos convencionalismos sociais e ao dia-a-dia, de contemplação ante os sofrimentos humanos, as misérias e dores impostas pelo regime em que vivemos, ante os crimes e horrores a que este regime dá lugar.

Supõem que o Espiritismo é a ressurreição das velhas teologias, um sistema de degradante estoicismo, que prega a submissão a todas as imposições, despotismos e ensinamentos, a todas as imoralidades e injustiças existentes que a moral avessa da sociedade considera como virtudes; que tende à pusilanimidade e ao relaxamento moral dos indivíduos e dos povos; que, aspirando o homem a uma vida ultraterrena, como compensação dos sofrimentos terrenos, quanto mais se humilhe, se arraste se degrade e sofra, quanto menos resistência oponha ao mal que nele exista ou em seus semelhantes, quanto mais afague ou adule a quem o oprima, tanto mais será sua felicidade e sua bem-aventurança na outra vida e maior o mérito por sua indignidade.

Daí deduz os detratores da filosofia espírita que esta é a doutrina mais antissocial e a mais oposta à melhoria do indivíduo e da sociedade.

À parte as distorcidas interpretações dos leigos, dos detratores e simplistas, há também as que, de forma inconsequente, dão algumas pessoas de cultura superior, a quem cairia bem o título de oportunistas, as quais, não tendo ainda se despojado de preconceitos religiosos, sociais ou de outra índole e apesar de terem perfeito conhecimento da filosofia espírita, dão a esta uma interpretação moral e sociológica de acordo com suas prevenções, seus interesses ou com o ambiente ou situação econômica em que atuam.

Esta interpretação convencional e sofistica que faz do Espiritismo uma doutrina circunstancial e detestável; que ao mesmo tempo faz com que sirva para exaltar o bem e a virtude, como para justificar o crime e o vício, tanto exalta a crueldade do guerreiro, como a santidade do apóstolo; que paga igual tributo ao credor endinheirado e ao mesquinho usurário como à honradez e generosidade do filantropo; que confunde a humildade com a humilhação que rebaixa a bondade e a doçura do caráter até o consentimento e aprovação de todas as infâmias, imposições e relaxamentos morais; que põe a mordaça na boca de cada rebelde que almeja um mundo de paz, de amor e de justiça, e ajuda a tornar mais pesada a cruz carregada pelas costas dos mais frágeis; que busca conciliar a moral espírita com a moral dos códigos e com essa outra moral social circunstancial, acomodatícia, que vale tanto como um imposto e que para o mesmo vício ou o mesmo crime, tanto tem a cadeira elétrica como a cruz de honra; que, enfim, meia hora depois de estar com Jesus, está com Pilatos e meia hora depois, com Herodes.

Essa interpretação, digo, é, em meu conceito, mais prejudicial ao Espiritismo que as anteriores, porque assume ante a opinião dos leigos e dos simplistas, um valor de lógica que, ainda que falsa, tem o mérito da autoridade de quem a expõe.

Quando assim se interpreta nossa doutrina, não é de estranhar que as demais ideologias e os homens que aspiram à dignificação da humanidade olhem o Espiritismo com prevenção e desconfiança e que, embora admitindo seus fatos, neguem-lhe a virtude palingenésica e moralizadora de sua doutrina.

É, assim, dever dos espiritistas de verdade expor fielmente, sem lorotas nem evasivas, o conceito moral e sociológico do Espiritismo, indo à fonte antiga de seus ensinamentos e submetendo à crítica racional as interpretações capciosas, precipitadas e convencionais.

Por nossa parte formularemos aqui algumas falsas apreciações, com as quais se mistifica e desvirtua o conceito moral e sociológico do Espiritismo, dividindo-as em duas categorias, a dos detratores eruditos e a dos simplistas oportunistas.

O espírita – dizem os primeiros – aspirando aos planos de existência superiores sente um grande desprezo pelas coisas e assuntos deste mundo, do qual deseja constantemente escapar, como o prisioneiro de sua prisão, por ser esta existência um episódio enfadonho da vida, que considera eterna, na garantia que tem de achar fora da terra horizontes mais amplos e mais livres para sua felicidade.

Para atingir este fim, o espírita deve levar uma vida de anacoreta, viver em atitude mística e contemplativa com o olhar sempre fixo no mundo dos espíritos, despreocupando-se quanto seja possível do plano empírico, das coisas materiais, que considera insignificante.

Sendo o mundo e a sociedade o resultado de um plano predeterminado por Deus, o espiritista o aceita tal qual é, sem intentar modificá-lo, porque toda revelação, todo repúdio, toda ação tendente a combater uma injustiça, a corrigir um defeito no regime social, a transformar as instituições etc. implica numa insubordinação à Autoridade Suprema.

Para o espírita, todo mal, todo erro, toda injustiça forma parte deste plano, obedece à lei de causalidade moral: um mal é consequência necessária de outro e o adepto do Espiritismo sente-se obrigado a respeitar esta lei.

O espírita vive obcecado no estudo das coisas do outro mundo, menosprezando as que a ciência ensina neste: trata de dar luz aos seres de além-túmulo que baixam às sessões, julgando não ser lá grande coisa as trevas em que vivem os deste plano; têm sábios conselhos, piedade e desculpa para os criminosos e demais pecadores desencarnados, para quem pedem alívio e perdão, mas não têm uma só palavra de consolo, uma desculpa, um conselho, nem uma atitude defensiva para os delinquentes vivos, a quem deixa à mercê da desgraça, do ódio da sociedade e do castigo e vingança da lei.

O espírita, acrescentam, condena as paixões e gozos materiais da vida, que são seus verdadeiros propulsores, considerando-os como obstáculo ao aperfeiçoamento do espírito. Até aqui os falsos intérpretes da primeira categoria.

Vejamos agora como conceituam nossa moral e nosso modo de atuar na sociedade, os da segunda, ou seja, os simplistas e oportunistas, os quais – muitos deles, apesar de vinculados à nossa ideologia – suas simplicidades e equilíbrios dialéticos servem de meio às críticas ideológicas e infundadas dos primeiros, que se atêm a elas mais que à doutrina.

O espírita, dizem estes, não deve rebelar-se contra as injustiças sociais, contra os males da sociedade, contra as misérias e dores que afligem a seus semelhantes, porque cada um, de acordo com a lei de causalidade, ocupa neste mundo o lugar que lhe corresponde, a condição e posição social que conquistou: deve ver sofrer e calar-se e até alegrar-se do sofrimento próprio e alheio; segundo suas crenças, o sofrimento purifica a alma; deve ver a vítima sendo escárnio do algoz e nada dizer, porque aquela, em outra existência haverá sido sem dúvida, carrasco e agora sofre as consequências.

Evitar esta expiação de sua falta é fazer-lhe um mal. Há que deixá-lo, pois, sofrer. Logicamente, comete uma incoerência socorrendo ao necessitado, porque este não seria tal se em sua existência anterior não tivesse sido um avaro, um rico endinheirado e egoísta.

Tampouco deve socorrer àquele que sofre um acidente na via pública, porque se este tem uma perna fraturada ou agoniza sob as rodas de um trem, é porque em sua vida anterior rompeu a perna de alguém (provavelmente do mesmo lado cuja fratura experimenta), ou fez sofrer a mesma agonia (talvez ao mesmo motorista que, sem querer nem saber, o machuca).

Se se trata de um depositário da riqueza social, de um rico usurário, egoísta e açambarcador, de um déspota poderoso ou de um perverso qualquer, que gozam à custa de seus semelhantes: pobres!…

Diz o simplista (considerando a possibilidade – que para ele se converte em uma certeza – de suas míseras vidas passadas), talvez tenha vivido anteriormente existências miseráveis.

Sem dúvida – acrescenta – foram escravos, mendigos: passaram frio, fome, sede de justiça etc. e hoje têm em suas elevadas situações a compensação de suas privações e sofrimentos…: não há, pois, porque reprovar seus procedimentos egoístas; cada um ocupa na sociedade o lugar que lhe corresponde, tanto a vítima quanto o algoz; na sociedade, tudo é ordem e harmonia…

Deixai-os desfrutar tranquilamente dos justos privilégios alcançados, ainda que seus irmãos gemam e pereçam no desespero e na miséria.

Deixai-os, dizem, por sua vez, os oportunistas, alegando o porvir causal dos poderosos, mas defendendo melhor seu cômodo presente; deixai-os, pois terão de sofrer as consequências de seu egoísmo em existências vindouras.

E, como se isto fosse pouco, agregam em sua desobrigação a parábola de Jesus: “é mais fácil um camelo entrar pelo fundo de uma agulha que um rico no reino dos céus”, pretendendo-se fazer crer que a missão moral e social do espírita consiste só na adoção de uma postura evangélica.

Vê-se semelhante coberto de farrapos, em frangalhos, convertido em afronta à sociedade adota então uma postura filosófica e com a circunspecção de quem penetrou nas predeterminações alheias, dizem: “é sua missão”.

Se mais tarde este ser miserável e mendigo, devido a seus próprios esforços ou favorecido por sua sorte, ocupa uma posição social e econômica elevada, repetem a mesma frase: “é sua missão”. Se logo por preguiça, imperícia, falta de economia ou previsão cai na desgraça e na ruína, também: “é sua missão”.

Se se eleva novamente, pisoteando metade da humanidade em sua ascensão imoral, o mesmo: “é sua missão”. Morre-se afogado por imprudência ou empolado por demasiada avareza, não há dúvida que, de acordo com o critério simplista, igualmente cumpriu “sua missão”.

Um amigo espírita, um tanto brincalhão, parodiando esta classe de intérpretes de nossa doutrina, dizia-me que, por ocasião de um homem estar sendo enforcado, não seria conveniente para elevação de sua alma, ajudar a enforcá-lo, porque, sem dúvida, de acordo com o critério simplista da lei de causalidade espírita, tê-lo-ia merecido e não seria de bons espíritas privá-lo desta agonia prazerosa, que talvez ele mesmo tivesse escolhido como prova para cumprir sua missão; pôr obstáculos ao seu livre desenvolvimento, em vez de prestar-lhe ajuda, seria estancar seu progresso.

Isto que pudesse parecer uma intervenção exagerada da lógica simplista, não o é. E, para demonstrar que não há em tudo o que digo invenção ou exagero, vou citar um fato concreto:

“Um visitante que, a julgar pela forma de expressar-se, dava a impressão de ser espírita e estar versado na doutrina, perguntou se, quando um homem está sofrendo, não seria prejudicial aliviar seus sofrimentos, pois, com isto – partindo-se de que todo efeito tem uma causa e que toda dor é necessária – impedia-se lhe de corrigir suas faltas passadas e se lhe privava dos meios que Deus lhe proporciona para o aperfeiçoamento do espírito”.

Do que se deduz – segundo a lógica simplista – se aliviar o sofrimento é mau e deixar sofrer é bom, provocá-lo é melhor, e quanto mais mal se faça, melhor se é. À parte do paradoxo de tão absurda doutrina, já se podem considerar os efeitos morais que produziria no mundo e que fama resultaria para os espíritas, semelhante aberração.

Nesta primeira fase de meu trabalho tenho procurado expor, em seus diversos pontos de vista, o falso conceito moral e sociológico do Espiritismo e como, com semelhante interpretação, se rebaixa a mais imoral e antissocial das ideologias.

Analisemos, agora, estas apreciações, a fim de demonstrar que tal maneira de raciocinar e tirar conclusão são contrária à essência da doutrina e que, em muitos casos, não passa de pura mistificação feita pelos detratores do Espiritismo, com o propósito de rebaixá-lo ante as tendências contrárias.

É um gravíssimo erro de lógica, quando não um sofisma, sustentar que o espírita, pelo fato de aspirar a planos de existência superiores, tenha necessariamente que sentir desprezo pelas coisas e assuntos deste mundo, posto que o bom sentido e a lógica mais elementar ensinam todo o contrário.

Se o progresso do espírito, seu adiantamento moral e intelectual, se todas suas perfeições futuras e sua felicidade têm por base as atividades do presente – o bem que faça e o mal que evite os conhecimentos que adquira os sacrifícios e esforços que isso realize os efeitos e considerações que por suas virtudes conquiste – quanto maior empenho ponha nas coisas e assuntos deste mundo – ou seja, naqueles que, física, moral e espiritualmente o beneficiem e a seus semelhantes – tanto maior será o bem para sua felicidade e aperfeiçoamento futuros.

Eis como o espírita está moralmente obrigado por força de suas convicções a trabalhar com fé e com firmeza pelas coisas e assuntos do plano terrestre, em sentido mais amplo e elevado que as demais tendências ideológicas, porque as coisas e assuntos deste plano são a condição indispensável para sua ascensão a planos de vida superiores, inacessíveis aos espíritos pusilânimes e inativos, indiferentes e egoístas.

O espírita encontra-se em análogas condições que o estudante que tem consciência da carreira que segue e do fim elevado de seus estudos; este aspira sempre a graus superiores e, longe de sentir desprezo pelo grau inferior em que se encontra, pelas coisas e assuntos da escola a que pertence, pelos professores que ensinam e os livros em que aprende, sente-se vinculado a eles por um sentimento de solidariedade e põe o maior empenho em aproveitar as lições e exemplos que recebe para seu adiantamento e de seus companheiros.

Sem que isto seja uma razão para que não repudie e combata os maus métodos de ensinamento, as velhas tendências escolásticas, os hábitos perniciosos, a negligência de seus companheiros, seus erros e seus vícios, a demasiada severidade de seus mestres, o excesso de disciplina e os sistemas anacrônicos do ensino e do regime escolar.

O sofisma dos críticos da doutrina espírita consiste, pois, neste caso, em sustentar que o estudante, análogo ao espírita, tem necessariamente que sentir desprezo por coisas e assuntos da escola a que pertence, pelo fato de aspirar a graus e escolas superiores.

A atuação do espírita neste mundo, tampouco pode ser de “mística contemplação”, como o estudante em permanecer inativo, em atitude contemplativa, sonhando com os benefícios e gozos espirituais que lhe proporcionará um dia o ensino das escolas superiores, despreocupando-se dos estudos que correspondam à sua classe – porque, neste caso, de nada adiantaria.

Tampouco o espírita pode – se se ajustar com lógica à sua doutrina – permanecer em atitude mística, contemplando inerte a vida do mais além e despreocupando-se das coisas e assuntos da Terra, quando é aqui no exercício de todas as suas faculdades e atitudes, que deve preparar-se e adquirir a soma de perfeições e conhecimentos que o façam digno e merecedor de uma existência superior.

Outro dos erros ou sofismas dos detratores da doutrina espírita é pretender que esta seja, por suas consequências, fatalista, e atribuir aos espíritas à crença de que Deus predeterminou as coisas deste mundo, de modo que o homem tenha que submeter-se passivamente a elas.

Para o conceito espírita, Deus não preestabeleceu nenhum plano que no desenvolvimento dos fatos e acontecimentos sociais exclua a intervenção consciente, inteligente ou relativamente livre do homem.

Crer que o ser onisciente que rege os destinos do universo tenha podido predeterminar as coisas tal como acontecem na sociedade sem suas reações correspondentes, equivaleria a sustentar o absurdo de que Ele quis que, por interesses mesquinhos e ambições desmedidas, os povos se lançassem uns contra outros em guerras fratricidas; que a maior parte das energias humanas fosse empregada em ações prejudiciais, em construir instrumentos de morte e de extermínio; que houvesse políticos e mandatários que enganassem os povos e, sob o pretexto de governá-los e de ocupar-se de sua felicidade, lavrassem, com o sacrifício alheio, a sua própria; que existissem religiões que, amparadas em seu nome, pregassem absurdos e mentiras para manter os homens na ignorância e deleitarem-se a expensas do erário público e do comércio vil entre o céu e a terra; que houvesse, de propósito, posto em seus planos coisas destinadas à concupiscência e à degradação; que, como um embuste e uma ironia sangrentos, estivesse de acordo com a construção de patíbulos e guilhotinas para alguns homens, não menos criminosos que os demais aos quais condenam, mas investidos de desumana autoridade, mandassem executar a estes com o maior sangue frio para desengano de todos, menos deles mesmos, e que o delinquente vulgar e inexperiente fosse, em muitos casos, julgado, perseguido e castigado pelo delinquente mais hábil, mais inteligente e mais elevado.

Equivaleria, enfim, a fazer de Deus, ser todo amor, todo justiça, todo inteligência, um verdadeiro monstro, sem nenhum dos atributos divinos que o Espiritismo lhe reconhece.

Deus não preestabelece nem predestina os acontecimentos, muito menos os sociais, que estão sujeitos a contingências, sem que por isto contradigam o princípio de causalidade, porque preestabelecer e predestinar são termos que expressam concepções humanas.

Isto deveria saber os críticos da doutrina espírita por serem muitos deles doutores e filósofos, ou ostentar tais títulos.

Para Deus não pode existir passado nem futuro, senão um eterno presente, porque sendo infinito em seus atributos, também o é no espaço e no tempo.

Deus estabelece e determina constantemente os acontecimentos por meio de suas leis sábias e constantes que abarcam todos os fatores concomitantes que contribuem necessária, ou contingentemente à sua realização, entre cujos fatores está, em primeiro lugar, o espírito humano que, longe de ser passivo, é consciente, inteligente e voluntário, ou seja, capaz de determinar-se, de reagir contra o meio social, contra os demais fatores extrínsecos e realizar livremente seu próprio destino, sem que por isto tenha que infringir qualquer lei divina, aja bem ou aja mal, porque suas debilidades e torpezas, como suas virtudes e seus acertos, estão dentro das possibilidades infinitas de Deus, com as que, necessária ou contingentemente o homem realiza, da mesma forma, seus desígnios.

E assim como as possibilidades de Deus são infinitas, são também infinitas suas leis e infinito o tempo que o espírito humano tem para cumpri-las.

Para o espírita, contrariamente às deduções dos críticos mal intencionados, o homem é a verdadeira causa atuante, consciente e propulsora da dinâmica social, o fator primordial e essência do desenvolvimento progressivo da sociedade, ao qual se subordinam os demais fatores de ordem material.

Deste ponto de vista de nossa doutrina, não é, nem pode ser, um simples espectador dos acontecimentos humanos, um contemplador indiferente das dores e misérias de seus semelhantes, um contemporizador com os privilégios, as injustiças, os vícios e as iniquidades que constituem a base imoral de nossa sociedade; não pode ser um despreocupado das coisas deste mundo, um submisso, um escravo das imposições sociais.

Não duvidamos de que entre os adeptos do Espiritismo haja simplistas que o creiam assim; mas, neste caso, combata-se esta atitude negativa e humilhante dos homens e não a virtude dos princípios que nossa ideologia ensina.

Admitimos os espíritas que o mal, o erro, a injustiça, o vício etc. façam parte do plano de nossa existência terrena, como fatores negativos da evolução, mas a eles opomos o bem, a verdade, a justiça e a virtude como seus modos positivos, ambos indispensáveis para o progresso e aperfeiçoamento do espírito sem os quais não é concebível qualquer existência espiritual.

Mas o conjunto de males, de vícios, de erros e de injustiças, como seus modos positivos contrários, que constituem a trama moral de nossa sociedade, não são mais do que a condição de nosso progresso, o ambiente necessário no qual devemos atuar (e não nos acomodarmos), para nele amenizar nosso espírito; é a resistência natural, em que devemos exercitar nossa energia espiritual, para nosso avanço ascensional.

A direção moral que traça ao homem o Espiritismo é a de reagir contra as más inclinações, egoísmos e baixezas que há nele e fora dele.

O Espiritismo não ataca as paixões, a não ser quando estas são baixas e degradam o homem, ou quando são dominadoras e o subjugam e escravizam.

As paixões, ainda que sejam as geradoras dos vícios mais baixos e deprimentes, também são das maiores virtudes e dos feitos mais nobres e elevados.

A alma – como bem disse um dos precursores da filosofia espírita, o admirável Platão – vai a uma carruagem puxada por dois corcéis, um branco, dócil, de formas graciosas, representa as paixões generosas de nossa natureza; o outro, negro, de cabeça compacta, com os olhos impregnados de sangue, sempre cheio de cólera, não obedece se não a duras penas ao açoite e ao aguilhão; este representa as paixões baixas.

A razão sustenta as rédeas da carruagem e se serve habilmente do corcel branco para corrigir os ímpetos do cavalo negro; faz-se senhora soberana de sua parelha, adianta-se com passo firme e seguro através das vicissitudes da vida até abrir as portas da imortalidade.

Nada melhor que esta bela metáfora do autor de Fedro para expressar o conceito espírita das paixões.

Com o exposto, cremos ter demonstrado de modo satisfatório a falsidade das apreciações dos que atribuem ao Espiritismo uma moral de passividade e de negação, frente aos problemas sociais e aos assuntos da vida terrena.

Vamos agora responder ao falso conceito dos simplistas e oportunistas, sobre os quais – seja dito, para alívio dos verdadeiros espíritas – deveria recair toda a responsabilidade das acusações precedentes, porque se balizam, mais que em um mal-entendido da doutrina, em suas interpretações errôneas e em suas inconsequências.

Sustentar que o espírita deve amoldar-se ao meio social: conviver com os interesses criados, com os egoísmos, infâmias, os prejuízos e imoralidades e não combater os males e injustiças sociais, nem tratar de aliviar as dores e misérias de seus semelhantes; dizer que cada um ocupa o lugar que lhe corresponde na sociedade e que se deve deixá-lo nesse lugar; que quem sofre é porque fez sofrer anteriormente aos demais e necessita do sofrimento (com o agravante de que há que deixá-lo ou fazê-lo sofrer) para purgar o mal feito; dar por originário em existências anteriores todos os males, todos os abusos, desmandos, crimes, desigualdades e iniquidades que se contemplam no mundo, tratar de justificá-los e pensar que a condenação e a reação a eles são contrárias ao espírito e à moral de nossa doutrina; significa, mais que uma falsa interpretação, uma falta de lucidez, na consciência dos que em tal coisa creem.

Se os espíritas sustentassem semelhante monstruosidade moral, a sociedade – pelo menos a parte sã – teria razão suficiente para trancar-nos em um manicômio e só passaríamos por cordatos ante a opinião interesseira dos exaltados, dos egoístas e dos velhacos, e o Espiritismo não serviria mais do que para justificar todas as infâmias e garantir o gozo de uns a expensas da desdita e da dor dos demais.

Para refutar semelhante absurdo, consideremos primeiro, que Deus pôs um véu em nosso passado para deixar-nos atuar no presente de modo que a recordação do que fomos não seja obstáculo aos nossos esforços para chegar ao que devemos ser, nem nos coloque em condições de inferioridade, uns com respeito aos outros.

Ignorando, pois, nosso passado, mal podemos justificar nossas diversas situações e incidentes presentes, nem sujeitar-nos a eles.

Mas sim, por indução, partimos do que somos para poder presumir o que fomos.

Não temos, por isto, o mesmo direito de deduzir a priori o que ignoramos ter sido, o que temos necessariamente que ser em um momento determinado de nossa existência, ainda mais se se tem em conta nossa liberdade moral.

Quando raciocinamos a posteriori, partindo de um fato conhecido como é nossa existência atual, há razões poderosas para persuadir-nos, não só do que somos como também do que podemos ou devemos ser de acordo com nosso conceito ideológico da vida.

Se um homem, por exemplo, me faz um dano, posso, por indução, hipoteticamente, concluir que este dano deve ter uma causa anterior e um efeito posterior, mas não posso partir da causa que desconheço para justificar o efeito conhecido, nem posso supor que este dano tenha necessariamente uma causa anterior, originada por um ato anterior meu, posto que na ordem moral nada nos autorize – nem o Espiritismo nos ensina – a crer na série infinita de causas e efeitos, porque bem pode suceder – e de minha parte estou moralmente convencido de que assim suceda – de que muitas de nossas ações, de nossas situações boas ou más, de nossos sofrimentos e alegrias, têm origem imediata nesta existência.

Isto já é um motivo para não cair na simplicidade de atribuir a todas as nossas ações terrenas uma causa remota que viria encadeada em uma série de causas infinitas.

Ainda aplicando este mesmo raciocínio ao princípio de causalidade espírita e admitindo, segundo o conceito simplista, que toda ação ou situação humana presente tem um antecedente causal em existências anteriores e um efeito como consequência moral da mesma ação ou situação, isto não provaria, necessariamente, que o mal deva corrigir-se com o mal, a injustiça com a injustiça, a ofensa com a ofensa, porque a lei de causalidade espírita não é unilateral, mas bilateral, ou seja, que um dano recebido pode ser corrigido por parte de quem o faz com um bem equivalente, sem necessidade de sofrer o mesmo mal causado.

E isto é precisamente o que ensina a doutrina espírita, que difere essencialmente do “olho por olho dente por dente” de Moisés e da moral das religiões e sistemas fatalistas.

O mal não é, pois, a consequência necessária de outro mal, e o espírita não tem o dever de respeitá-lo nem de a ele submeter-se.

Se um homem, por acaso, está se afogando, não seria razoável nem de bons espíritas entrar em averiguações se essa é a situação que, de acordo com suas ações passadas, lhe corresponde, ou se é ou não merecida; seu dever moral é tratar de salvá-lo.

Do mesmo modo, se este mesmo homem sofre privações, dores, enfermidades, misérias ou injustiças, causadas pela avareza, o egoísmo e a prepotência amparada por lei, não deve referir-se a ele e dizer-lhe:

Sofre! Cala-te! Submete-te! Humilha-te!

Porque tudo isto é consequência de faltas análogas cometidas em existências anteriores.

Deve dirigir-se aos causadores de todos estes males e reprovar sua conduta, fazendo-os compreender que seus atos atuais e seu iníquo proceder terão no futuro consequências fatais.

Não é, pois, olhando para trás, mas para adiante, como deve se conduzir o verdadeiro espírita. Suponhamos que uma pessoa se apresentasse a um destes simplistas que pretendem justificar todos os males do presente por ações do passado e lhe pedisse emprestada uma quantidade de dinheiro para sair de uma situação premente e que, quando este fosse pedir-lhe, a tal pessoa lhe dissesse:

– Amigo, eu não lhe devo nada; você ainda está pendente de uma dívida comigo.

– Como? Diria o simplista.

É a coisa mais natural e espírita do mundo: sucede que em nossa existência anterior eu lhe emprestei uma quantia maior que aquela que você me devolveu.

E agora, para saldar a conta você deve devolver-me o resto.

Sem dúvida que o simplista não iria ficar muito de acordo e, no entanto, essa é sua lógica.
Lógica muito boa para sustentar todas as maldades e patifarias e, especialmente, para fazer frente aos nossos credores.

A rigor, ninguém ocupa na sociedade o lugar que lhe corresponde ou lhe pertence, senão o que foi conquistado, muitas vezes a expensas da ignorância e da fragilidade dos demais.

De fato, todos ocupamos um lugar, mas de direito ninguém ocupa o que deve ocupar.

O lugar que cada um ocupa na sociedade não está prefixado fatalmente; é acidental, momentâneo, um instante passageiro e fugaz de nossa evolução; muda incessantemente, pode e deve mudar todo o impulso de nossa vontade, de nossos sentimentos e de nossos esforços; e o conjunto das vontades, dos sentimentos e dos esforços combinados pode imprimir à sociedade um novo movimento e fazê-la capaz de uma ideologia superior que faça desaparecer muitos dos males e injustiças sociais.

Não devem cegar-nos nem impedir-nos as posições fortuitas, circunstanciais e passageiras, nem sempre necessárias ou justas, porque a justiça não se cumpre em um instante de nossa evolução, mas no progresso eterno de nosso espírito.

Lançados como uma flecha no espaço, com um fim ideal e sem solução de continuidade em nosso avanço, não ocupamos jamais um lugar preciso na escala infinita de nossa evolução.

É por isso que o lugar que nos corresponde no mundo, estamos muito longe de ocupar e creio que jamais o ocuparemos definitivamente.

Mas há sim, um lugar, que está em nossa consciência, em nossa consciência de espíritas, que é o que sinaliza nossa ideologia e que devemos ocupar em todo momento, elevando-nos sobre todas as mazelas humanas, de todos os convencionalismos, circunstâncias acomodatícias e de todos os interesses egoístas.

Teremos a liberdade e o valor de dizer nossa verdade, sem ambiguidades nem evasivas, mas também sem ódios e sem rancores de ninguém, considerando que as posições e classes sociais não constituem categorias de ordem moral e que o mal, em qualquer de suas manifestações, depende, acima de tudo, da falta de compreensão e de capacidade para o bem.

Façamos como o médico filantropo que, se combate as enfermidades, é apenas com o propósito de curar os enfermos.

Esse é o lugar ideal que, de acordo com a doutrina espírita, nos corresponde ocupar, os que nos temos nutrido de seus sábios e nobres ensinamentos.

Manuel S. Porteiro (1881-1936), pensador espírita argentino, considerado o fundador da sociologia espírita. Foi presidente da Confederação Espírita Argentina (1934-1935), tendo representado este país, ao lado de Humberto Mariotti, no V Congresso Espírita Internacional de Barcelona, em 1934. Escreveu os livros Espiritismo Dialectico, Concepto Espírita de la Sociología, Origen de las Ideas Morales e Ama y Espera.

 

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Responses

  1. Espiritismo Doutrinario.
    1)O Espiritismo ou Doutrina Espírita não tem nenhuma ligação com cartomantes, umbanda, candomblé, magias, misticismo.
    O Mestre Allan Kardec em suas Obras não manda ninguém usar velas, incenso, amuletos, talismã, roupas brancas, imagens de santos, fazer despachos, muito menos sacrificar pobres animais, nada disso representa a Doutrina Espirita.
    Uma questão muito importante, Kardec não manda ninguém evocar espíritos para tratar de assuntos matérias terra a terra, assuntos vulgares como, volta da pessoa amada, sorte com o dinheiro, sorte com as mulheres, predizer o futuro, revelar tesouros perdidos, revelar formulas para ficar rico, fazer trabalhos de magia para prejudicar desafetos etc…
    O intercambio com o mundo espiritual ou plano astral é para instruir, esclarecer e moralizar os espíritos humanos.
    Nunca para tratar de assuntos vulgares, matérias e mesquinhos sem elevação Moral.
    Quem pratica essas coisas vai atrair pela Sintonia vibratória dos pensamentos os espíritos inferiores, perturbadores, embusteiros e obsessores do plano astral.
    O intercambio mediúnico com o mundo espiritual é algo muito serio e nobre e também perigoso, a mediunidade tem que ser praticada com disciplina, elevação moral, responsabilidade, ordem e critérios doutrinários.
    Tudo no mundo espiritual ou plano astral é regulado pela Lei de Sintonia Vibratória dos Pensamentos ou Afinidade Moral.
    Os semelhantes se atraem e os diferentes se repelem.
    O Bem tem sintonia com o Bem.
    A Virtude tem sintonia com a virtude.
    A Verdade tem sintonia com a Verdade.
    O mal tem sintonia com o mal.
    O vicio tem sintonia com o vicio.
    A mentira tem sintonia com a mentira.
    Tudo é sintonia e atração no plano espiritual.
    Cada pessoa conforme seus pensamentos, sentimentos e atitudes vai atrair Bons ou maus espíritos, tudo depende do Padrão Moral dos pensamentos das pessoas.

    2)Não adianta usar roupas brancas, amuletos, talismã, velas, incenso, exorcismos, imagens de santos, para afastar os maus espíritos.
    Temos que cultivar pensamentos elevados e nobres e praticar o Bem e as Virtudes, dessa forma a pessoa consegue elevar seu Padrão Vibratório e repele as vibrações pesadas e negativas dos espíritos inferiores, perturbadores e obsessores do plano astral.
    Não havendo sintonia vibratória os maus espíritos não conseguem influenciar as pessoas.
    O Bem repele o mal.
    Uma outra questão muito importante no Espiritismo é que esses espíritos desencarnados que se apresentam nas reuniões mediúnicas pedindo cigarros, farofa, charutos, cachaça, velas, despachos e sacrifícios de pobres animais, são espíritos moralmente atrasados apegados a matéria e aos vícios e desejos terrenos, somente espíritos inferiores podem pedir tais coisas.
    Os Espiritos Superiores e os Bons Espiritos já estão com seus pensamentos e sentimentos moralmente depurados, eles não tem necessidades matérias.
    Quem pede essas coisas são espíritos inferiores que possuem um perispirito denso, grosseiro, eles sentem ainda as necessidades matérias que eles tinham quando estavam encarnados, como eles não possuem mais o corpo físico para saciar tais desejos e vícios terrenos, eles vão se servir dos encarnados que possuem esses desejos e vícios.
    Eles vão encostar o seu perispirito no perispirito do encarnado que esta bebendo ou fumando e vão sugar fluidicamente os fluidos da nicotina e do álcool num processo chamado de Vampirismo psíquico, eles são tipo parasitas espirituais.
    É por isso que esses médiuns que usam cachaça e charutos são Vampirizados por espíritos inferiores do plano astral.

    3) Perguntamos.
    Vocês acham que um Espírito Superior um Espírito de Luz vai necessitar de velas, cachaça, cigarros, charutos e despachos???
    Vocês acham que um Espírito Elevado vai pedir sacrifícios de pobres animais????
    Procurem raciocinar.
    Quem pede essas coisas são espíritos que ainda estão presos as necessidades matérias, são espíritos moralmente atrasados.
    E muitos desses espíritos podem ser maldosos e vingativos, cuidado!!
    Os despachos são usados para esses espíritos sugarem as emanações fluídicas dos alimentos que são colocados ali.
    É um bando de Vampiros, isso que eles são.
    E muitas pessoas acham que são Espíritos Elevados que pedem essas coisas, isso é deplorável.
    Esses espíritos que se apresentam como caboclos, índios, pretos velhos, orixás, são espíritos desencarnados que ainda estão com seus pensamentos e sentimentos apegados as coisas matérias, eles precisam se depurar moralmente e se esclarecerem.

    4) O Espiritismo tem por finalidade básica instruir, esclarecer, educar, moralizar e espiritualizar as pessoas, incentivando elas a seguirem o caminho do Bem, da caridade e das virtudes.
    O Espiritismo é uma Escola de esclarecimentos espirituais, um dos seus ensinamentos básicos é desenvolver a Fé raciocinada na mente das pessoas.
    O Espiritismo nas Obras do Mestre Allan Kardec esclarece que não existem milagres e nem fatos sobrenaturais no Universo, todos os fenômenos espíritas e mediúnicos são fenômenos NATURAIS regulados por Leis naturas, eternas e imutáveis.
    O Deus bíblico que realiza milagres, que castiga, que perdoa, que distribui favores não existe, esse é o Deus criado pelos homens.
    Deus criou o homem e o homem criou vários Deuses.
    O Deus bíblico é uma criação humana.
    Esse Deus que sente ira, cólera, raiva, pede sacrifícios de animais, manda exterminar povos estrangeiros, é uma fantasia.
    Deus não faz milagres, Jesus nunca fez milagres, as curas realizadas pelo grande Mestre Jesus eram fenômenos psíquicos Naturais.
    O Mestre Kardec fala em seus livros, que é a falta de conhecimentos das Leis naturais que regem o mundo espiritual que criou a idéia do milagre e do sobrenatural.
    É por isso que a fé no Espiritismo é Racional e não mística.

    5) Existe muitas pessoas que se dizem espíritas e quando começam a falar do Espiritismo, falam de banho de ervas, banho de sal grosso, velas, amuletos, roupas brancas, imagens de santos, vamos ver claramente que não são Espíritas, por que, o Espiritismo ou Doutrina Espírita não prega essas coisas.
    O Mestre Kardec em seus livros não manda ninguém usar velas, amuletos, talismã, roupas brancas, imagens de santos ou anjos, nem fazer despachos ou sacrificar pobres animais, nada disso existe na Doutrina Espírita.
    Portanto, temos que estudar as Obras de Allan Kardec para podermos ter uma visão clara e segura do Espiritismo.
    Sem Kardec não existe Doutrina Espírita.
    Uma outra questão importante, a Umbanda não é Espiritismo.
    A umbanda trabalha com fenômenos mediúnicos, ou seja, a mediunidade, eles entram em contato com os espíritos desencarnados para certos trabalhos.
    Porem, as diferenças entre Espiritismo e Umbanda é muito grande, repetimos, o Mestre Allan Kardec em seus Livros não orienta ninguém a usar velas, amuletos, roupas brancas, imagens de santos, fazer despachos e sacrificar covardemente animais inocentes, isso não tem nada haver com os princípios Doutrinários do Espiritismo.
    Não estou discriminando nada só estou definindo questões Doutrinarias.
    Não podemos misturar coisas diferentes.

    6) Como reconhecer a elevação dos espíritos desencarnados que se apresentam nos trabalhos mediúnicos???
    A Linguagem e os ensinamentos é o ponto chave.
    Os Espíritos Superiores e os Bons Espíritos possuem sempre uma Linguagem moralmente LIMPA, sua linguagem é elevada, nobre, pura, digna, lógica, e sublime de moralidade e seus Ensinamentos possuem sempre um teor Moral elevado e digno, eles pregam sempre em suas comunicações ou mensagens, a Caridade, o Amor, as Virtudes, a Disciplina, a Ordem, a Justiça, a Humildade, a Elevação Moral.
    Os Espíritos Elevados são Virtuosos em seus ensinamentos.
    De um Espírito Elevado só pode vim Virtudes, Luz e Amor.

    Os espíritos inferiores apegados a matéria e aos vícios e desejos terrenos, possuem sempre uma Linguagem moralmente pesada e maliciosa.
    Eles possuem uma Linguagem grosseira, pesada, vulgar, violenta, agressiva, chula, sem lógica e sem elevação moral.
    Desses espíritos só podem vim vícios, mentiras, vulgaridades e grosserias.
    A Linguagem é o ponto chave que devemos analisar sempre nas comunicações mediúnicas.
    Portanto, nas comunicações e mensagens que venha dos espíritos desencarnados temos que analisar com muito cuidado a Linguagem e os ensinamentos dos Espíritos.

    Os espíritos inferiores também gostam de se impor e dar ordens, querem ser obedecidos, não podemos questionar nada, temos que aceitar as suas orientações.
    Esse é um sinal claro de embuste.
    Os espíritos elevados jamais se impõem e nem dão ordens, eles dão conselhos e orientações visando sempre a melhoria Moral e espiritual das pessoas, uma outra questão importante, os Espíritos Elevados nunca vão tratar de assuntos matérias como, volta da pessoa amada, sorte no jogo, sorte com o dinheiro, predizer o futuro, revelar tesouros escondidos, revelar formulas para ficar rico etc…
    Somente espíritos apegados a matéria é que tratam dessas coisas e muitos desses espíritos podem ser obsessores.
    Outra questão importante, os Espíritos de Luz ou Espíritos Superiores e Elevados não possuem necessidades matérias, eles não precisam de velas, charutos, cigarros, cachaça, farofa etc…
    Quem precisa dessas coisas são espíritos apegados a matéria e aos vícios e desejos terrenos, somente isso.
    Vocês acham que os Espíritos de Luz vão pedir essas coisas????
    Procurem pensar.

    7)Existe no mundo espiritual ou plano extra físico muitos espíritos embusteiros, mentirosos, hipócritas, sedutores e mistificadores, o Mestre Allan Kardec chama esses espíritos de os falsos profetas da erraticidade, Kardec explica que esses espíritos embusteiros tomam nomes falsos e usam uma Linguagem melosa e sedutora para enganar as pessoas.
    Como evitar os espíritos mistificadores???
    Primeiro, não podemos aceitar nada que venha dos espíritos desencarnados sem rigoroso exame.
    Segundo, todos os ensinamentos que venham dos espíritos desencarnados têm que passar pelo crivo severo da Razão e da Lógica mais rigorosa possível para poder ser aceito.
    Qualquer ensinamento que choque a lógica, a razão e a moral elevada, deve ser rejeitado, essas são as recomendações DOUTRINARIAS do Mestre Allan Kardec.
    É por isso, que eu procuro raciocinar muito nessas questões, por que, a Fé no Espiritismo tem que ser Racional e não mística.
    Tudo isso que eu coloquei esta nas Obras do Mestre Kardec.

    • Salve “Deus”
      WILSON MORENO 67.

      FALSO CONCEITO DE ESPIRITISMO

      Chamo falso conceito de Espiritismo à errônea interpretação ou compreensão equivocada que muitas pessoas têm de sua filosofia no que se refere a seu aspecto moral e sociológico.
      E é sobre este ponto que desejo fazer refletir as pessoas estudiosas que, animadas de um nobre propósito de redenção humana, desejam que nossa ideologia abra caminho através de tantas misérias e preconceitos morais e seja apreciada em seu verdadeiro valor filosófico, incitando que a reta interpretação de sua doutrina moral e sociológica tenha para a humanidade e para seus ideais superiores mais importância que a compreensão científica de seus fenômenos que, por ser de mais difícil alcance, só é acessível e de maior interesse a um número – por desgraça bastante reduzido – de estudiosos.
      Muitas pessoas, ainda que conhecendo relativamente o Espiritismo e apesar, em alguns casos, de sua erudição, dão-lhe um significado moral e sociológico completamente falso e que não pode se chocar com o verdadeiro conceito filosófico que emana de seus feitos e de seus postulados e com as aspirações ideológicas para elevar o nível moral e social dos indivíduos e dos povos, impulsionando-os para uma era de paz, amor e justiça.
      Logicamente, mais que qualquer outra tendência ideológica, cabe ao Espiritismo – dado seu conhecimento científico e espiritual do homem – trabalhar pelo advento de uma sociedade melhor, desvencilhando os homens de suas paixões baixas, de seus preconceitos e interesses mesquinhos, por serem estes os que dão origem aos mais nocivos dos materialismos e servir de apoio a um sem fim de iniqüidades, de crimes e de vícios que geram e se desenvolvem no seio da sociedade, mas que são suscetíveis de desaparecer, ou pelo menos diminuir, instruindo racionalmente, sem sofismas nem acomodações, nossa moral e a sociologia que dela emana.
      Infelizmente, os detratores de nossa filosofia e os simplistas, sem lógica nem discernimento, que vegetam à sua sombra, crêem, ou se empenham em fazer crer, que o Espiritismo é uma doutrina de conveniência, de acomodação ao meio social e econômico, de conformismo com todas as indecisões e circunstâncias da vida, de sujeição aos convencionalismos sociais e ao dia-a-dia, de contemplação ante os sofrimentos humanos, as misérias e dores impostas pelo regime em que vivemos, ante os crimes e horrores a que este regime dá lugar.

      Supõem que o Espiritismo é a ressurreição das velhas teologias, um sistema de degradante estoicismo, que prega a submissão a todas as imposições, despotismos e ensinamentos, a todas as imoralidades e injustiças existentes que a moral avessa da sociedade considera como virtudes; que tende à pusilanimidade e ao relaxamento moral dos indivíduos e dos povos; que, aspirando o homem a uma vida ultra-terrena, como compensação dos sofrimentos terrenos, quanto mais se humilhe, se arraste se degrade e sofra, quanto menos resistência oponha ao mal que nele exista ou em seus semelhantes, quanto mais afague ou adule a quem o oprima, tanto mais será sua felicidade e sua bem-aventurança na outra vida e maior o mérito por sua indignidade.
      Daí deduz os detratores da filosofia espírita que esta é a doutrina mais anti-social e a mais oposta à melhoria do indivíduo e da sociedade.
      À parte as distorcidas interpretações dos leigos, dos detratores e simplistas, há também as que, de forma inconseqüente, dão algumas pessoas de cultura superior, a quem cairia bem o título de oportunistas, as quais, não tendo ainda se despojado de preconceitos religiosos, sociais ou de outra índole e apesar de terem perfeito conhecimento da filosofia espírita, dão a esta uma interpretação moral e sociológica de acordo com suas prevenções, seus interesses ou com o ambiente ou situação econômica em que atuam.
      Esta interpretação convencional e sofistica que faz do Espiritismo uma doutrina circunstancial e detestável; que ao mesmo tempo faz com que sirva para exaltar o bem e a virtude, como para justificar o crime e o vício, tanto exalta a crueldade do guerreiro, como a santidade do apóstolo; que paga igual tributo ao credor endinheirado e ao mesquinho usurário como à honradez e generosidade do filantropo; que confunde a humildade com a humilhação que rebaixa a bondade e a doçura do caráter até o consentimento e aprovação de todas as infâmias, imposições e relaxamentos morais; que põe a mordaça na boca de cada rebelde que almeja um mundo de paz, de amor e de justiça, e ajuda a tornar mais pesada a cruz carregada pelas costas dos mais frágeis; que busca conciliar a moral espírita com a moral dos códigos e com essa outra moral social circunstancial, acomodatícia, que vale tanto como um imposto e que para o mesmo vício ou o mesmo crime, tanto tem a cadeira elétrica como a cruz de honra; que, enfim, meia hora depois de estar com Jesus, está com Pilatos e meia hora depois, com Herodes.
      Essa interpretação, digo, é, em meu conceito, mais prejudicial ao Espiritismo que as anteriores, porque assume ante a opinião dos leigos e dos simplistas, um valor de lógica que, ainda que falsa, tem o mérito da autoridade de quem a expõe.
      Quando assim se interpreta nossa doutrina, não é de estranhar que as demais ideologias e os homens que aspiram à dignificação da humanidade olhem o Espiritismo com prevenção e desconfiança e que, embora admitindo seus fatos, neguem-lhe a virtude palingenésica e moralizadora de sua doutrina.
      É, assim, dever dos espiritistas de verdade expor fielmente, sem lorotas nem evasivas, o conceito moral e sociológico do Espiritismo, indo à fonte antiga de seus ensinamentos e submetendo à crítica racional as interpretações capciosas, precipitadas e convencionais.
      Por nossa parte formularemos aqui algumas falsas apreciações, com as quais se mistifica e desvirtua o conceito moral e sociológico do Espiritismo, dividindo-as em duas categorias, a dos detratores eruditos e a dos simplistas oportunistas.
      O espírita – dizem os primeiros – aspirando aos planos de existência superiores sente um grande desprezo pelas coisas e assuntos deste mundo, do qual deseja constantemente escapar, como o prisioneiro de sua prisão, por ser esta existência um episódio enfadonho da vida, que considera eterna, na garantia que tem de achar fora da terra horizontes mais amplos e mais livres para sua felicidade.
      Para atingir este fim, o espírita deve levar uma vida de anacoreta, viver em atitude mística e contemplativa com o olhar sempre fixo no mundo dos espíritos, despreocupando-se quanto seja possível do plano empírico, das coisas materiais, que considera insignificante.
      Sendo o mundo e a sociedade o resultado de um plano predeterminado por Deus, o espiritista o aceita tal qual é, sem intentar modificá-lo, porque toda revelação, todo repúdio, toda ação tendente a combater uma injustiça, a corrigir um defeito no regime social, a transformar as instituições etc. implica numa insubordinação à Autoridade Suprema.
      Para o espírita, todo mal, todo erro, toda injustiça forma parte deste plano, obedece à lei de causalidade moral: um mal é conseqüência necessária de outro e o adepto do Espiritismo sente-se obrigado a respeitar esta lei.
      O espírita vive obcecado no estudo das coisas do outro mundo, menosprezando as que a ciência ensina neste: trata de dar luz aos seres de além-túmulo que baixam às sessões, julgando não ser lá grande coisa as trevas em que vivem os deste plano; têm sábios conselhos, piedade e desculpa para os criminosos e demais pecadores desencarnados, para quem pedem alívio e perdão, mas não têm uma só palavra de consolo, uma desculpa, um conselho, nem uma atitude defensiva para os delinqüentes vivos, a quem deixa à mercê da desgraça, do ódio da sociedade e do castigo e vingança da lei.
      O espírita, acrescentam, condena as paixões e gozos materiais da vida, que são seus verdadeiros propulsores, considerando-os como obstáculo ao aperfeiçoamento do espírito. Até aqui os falsos intérpretes da primeira categoria.
      Vejamos agora como conceituam nossa moral e nosso modo de atuar na sociedade, os da segunda, ou seja, os simplistas e oportunistas, os quais – muitos deles, apesar de vinculados à nossa ideologia – suas simplicidades e equilíbrios dialéticos servem de meio às críticas ideológicas e infundadas dos primeiros, que se atêm a elas mais que à doutrina.
      O espírita, dizem estes, não deve rebelar-se contra as injustiças sociais, contra os males da sociedade, contra as misérias e dores que afligem a seus semelhantes, porque cada um, de acordo com a lei de causalidade, ocupa neste mundo o lugar que lhe corresponde, a condição e posição social que conquistou: deve ver sofrer e calar-se e até alegrar-se do sofrimento próprio e alheio; segundo suas crenças, o sofrimento purifica a alma; deve ver a vítima sendo escárnio do algoz e nada dizer, porque aquela, em outra existência haverá sido sem dúvida, carrasco e agora sofre as consequências.
      Evitar esta expiação de sua falta é fazer-lhe um mal. Há que deixá-lo, pois, sofrer. Logicamente, comete uma incoerência socorrendo ao necessitado, porque este não seria tal se em sua existência anterior não tivesse sido um avaro, um rico endinheirado e egoísta.
      Tampouco deve socorrer àquele que sofre um acidente na via pública, porque se este tem uma perna fraturada ou agoniza sob as rodas de um trem, é porque em sua vida anterior rompeu a perna de alguém (provavelmente do mesmo lado cuja fratura experimenta), ou fez sofrer a mesma agonia (talvez ao mesmo motorista que, sem querer nem saber, o machuca).
      Se se trata de um depositário da riqueza social, de um rico usurário, egoísta e açambarcador, de um déspota poderoso ou de um perverso qualquer, que gozam à custa de seus semelhantes: pobres!…
      Diz o simplista (considerando a possibilidade – que para ele se converte em uma certeza – de suas míseras vidas passadas), talvez tenha vivido anteriormente existências miseráveis.
      Sem dúvida – acrescenta – foram escravos, mendigos: passaram frio, fome, sede de justiça etc. e hoje têm em suas elevadas situações a compensação de suas privações e sofrimentos…: não há, pois, porque reprovar seus procedimentos egoístas; cada um ocupa na sociedade o lugar que lhe corresponde, tanto a vítima quanto o algoz; na sociedade, tudo é ordem e harmonia…
      Deixai-os desfrutar tranquilamente dos justos privilégios alcançados, ainda que seus irmãos gemam e pereçam no desespero e na miséria.
      Deixai-os, dizem, por sua vez, os oportunistas, alegando o porvir causal dos poderosos, mas defendendo melhor seu cômodo presente; deixai-os, pois terão de sofrer as consequências de seu egoísmo em existências vindouras.
      E, como se isto fosse pouco, agregam em sua desobrigação a parábola de Jesus: “é mais fácil um camelo entrar pelo fundo de uma agulha que um rico no reino dos céus”, pretendendo-se fazer crer que a missão moral e social do espírita consiste só na adoção de uma postura evangélica.
      Vê-se semelhante coberto de farrapos, em frangalhos, convertido em afronta à sociedade adota então uma postura filosófica e com a circunspecção de quem penetrou nas predeterminações alheias, dizem: “é sua missão”.
      Se mais tarde este ser miserável e mendigo, devido a seus próprios esforços ou favorecido por sua sorte, ocupa uma posição social e econômica elevada, repetem a mesma frase: “é sua missão”. Se logo por preguiça, imperícia, falta de economia ou previsão cai na desgraça e na ruína, também: “é sua missão”.
      Se se eleva novamente, pisoteando metade da humanidade em sua ascensão imoral, o mesmo: “é sua missão”. Morre-se afogado por imprudência ou empolado por demasiada avareza, não há dúvida que, de acordo com o critério simplista, igualmente cumpriu “sua missão”.
      Um amigo espírita, um tanto brincalhão, parodiando esta classe de intérpretes de nossa doutrina, dizia-me que, por ocasião de um homem estar sendo enforcado, não seria conveniente para elevação de sua alma, ajudar a enforcá-lo, porque, sem dúvida, de acordo com o critério simplista da lei de causalidade espírita, tê-lo-ia merecido e não seria de bons espíritas privá-lo desta agonia prazerosa, que talvez ele mesmo tivesse escolhido como prova para cumprir sua missão; pôr obstáculos ao seu livre desenvolvimento, em vez de prestar-lhe ajuda, seria estancar seu progresso.
      Isto que pudesse parecer uma intervenção exagerada da lógica simplista, não o é. E, para demonstrar que não há em tudo o que digo invenção ou exagero, vou citar um fato concreto:
      “Um visitante que, a julgar pela forma de expressar-se, dava a impressão de ser espírita e estar versado na doutrina, perguntou se, quando um homem está sofrendo, não seria prejudicial aliviar seus sofrimentos, pois, com isto – partindo-se de que todo efeito tem uma causa e que toda dor é necessária – impedia-se lhe de corrigir suas faltas passadas e se lhe privava dos meios que Deus lhe proporciona para o aperfeiçoamento do espírito”.
      Do que se deduz – segundo a lógica simplista – se aliviar o sofrimento é mau e deixar sofrer é bom, provocá-lo é melhor, e quanto mais mal se faça, melhor se é. À parte do paradoxo de tão absurda doutrina, já se podem considerar os efeitos morais que produziria no mundo e que fama resultaria para os espíritas, semelhante aberração.
      Nesta primeira fase de meu trabalho tenho procurado expor, em seus diversos pontos de vista, o falso conceito moral e sociológico do Espiritismo e como, com semelhante interpretação, se rebaixa a mais imoral e antissocial das ideologias.
      Analisemos, agora, estas apreciações, a fim de demonstrar que tal maneira de raciocinar e tirar conclusão são contrária à essência da doutrina e que, em muitos casos, não passa de pura mistificação feita pelos detratores do Espiritismo, com o propósito de rebaixá-lo ante as tendências contrárias.
      É um gravíssimo erro de lógica, quando não um sofisma, sustentar que o espírita, pelo fato de aspirar a planos de existência superiores, tenha necessariamente que sentir desprezo pelas coisas e assuntos deste mundo, posto que o bom sentido e a lógica mais elementar ensinam todo o contrário.
      Se o progresso do espírito, seu adiantamento moral e intelectual, se todas suas perfeições futuras e sua felicidade têm por base as atividades do presente – o bem que faça e o mal que evite os conhecimentos que adquira os sacrifícios e esforços que isso realize os efeitos e considerações que por suas virtudes conquiste – quanto maior empenho ponha nas coisas e assuntos deste mundo – ou seja, naqueles que, física, moral e espiritualmente o beneficiem e a seus semelhantes – tanto maior será o bem para sua felicidade e aperfeiçoamento futuros.
      Eis como o espírita está moralmente obrigado por força de suas convicções a trabalhar com fé e com firmeza pelas coisas e assuntos do plano terrestre, em sentido mais amplo e elevado que as demais tendências ideológicas, porque as coisas e assuntos deste plano são a condição indispensável para sua ascensão a planos de vida superiores, inacessíveis aos espíritos pusilânimes e inativos, indiferentes e egoístas.
      O espírita encontra-se em análogas condições que o estudante que tem consciência da carreira que segue e do fim elevado de seus estudos; este aspira sempre a graus superiores e, longe de sentir desprezo pelo grau inferior em que se encontra, pelas coisas e assuntos da escola a que pertence, pelos professores que ensinam e os livros em que aprende, sente-se vinculado a eles por um sentimento de solidariedade e põe o maior empenho em aproveitar as lições e exemplos que recebe para seu adiantamento e de seus companheiros.
      Sem que isto seja uma razão para que não repudie e combata os maus métodos de ensinamento, as velhas tendências escolásticas, os hábitos perniciosos, a negligência de seus companheiros, seus erros e seus vícios, a demasiada severidade de seus mestres, o excesso de disciplina e os sistemas anacrônicos do ensino e do regime escolar.
      O sofisma dos críticos da doutrina espírita consiste, pois, neste caso, em sustentar que o estudante, análogo ao espírita, tem necessariamente que sentir desprezo por coisas e assuntos da escola a que pertence, pelo fato de aspirar a graus e escolas superiores.
      A atuação do espírita neste mundo, tampouco pode ser de “mística contemplação”, como o estudante em permanecer inativo, em atitude contemplativa, sonhando com os benefícios e gozos espirituais que lhe proporcionará um dia o ensino das escolas superiores, despreocupando-se dos estudos que correspondam à sua classe – porque, neste caso, de nada adiantaria.
      Tampouco o espírita pode – se se ajustar com lógica à sua doutrina – permanecer em atitude mística, contemplando inerte a vida do mais além e despreocupando-se das coisas e assuntos da Terra, quando é aqui no exercício de todas as suas faculdades e atitudes, que deve preparar-se e adquirir a soma de perfeições e conhecimentos que o façam digno e merecedor de uma existência superior.
      Outro dos erros ou sofismas dos detratores da doutrina espírita é pretender que esta seja, por suas consequências, fatalista, e atribuir aos espíritas à crença de que Deus predeterminou as coisas deste mundo, de modo que o homem tenha que submeter-se passivamente a elas.
      Para o conceito espírita, Deus não preestabeleceu nenhum plano que no desenvolvimento dos fatos e acontecimentos sociais exclua a intervenção consciente, inteligente ou relativamente livre do homem.
      Crer que o ser onisciente que rege os destinos do universo tenha podido predeterminar as coisas tal como acontecem na sociedade sem suas reações correspondentes, equivaleria a sustentar o absurdo de que Ele quis que, por interesses mesquinhos e ambições desmedidas, os povos se lançassem uns contra outros em guerras fratricidas; que a maior parte das energias humanas fosse empregada em ações prejudiciais, em construir instrumentos de morte e de extermínio; que houvesse políticos e mandatários que enganassem os povos e, sob o pretexto de governá-los e de ocupar-se de sua felicidade, lavrassem, com o sacrifício alheio, a sua própria; que existissem religiões que, amparadas em seu nome, pregassem absurdos e mentiras para manter os homens na ignorância e deleitarem-se a expensas do erário público e do comércio vil entre o céu e a terra; que houvesse, de propósito, posto em seus planos coisas destinadas à concupiscência e à degradação; que, como um embuste e uma ironia sangrentos, estivesse de acordo com a construção de patíbulos e guilhotinas para alguns homens, não menos criminosos que os demais aos quais condenam, mas investidos de desumana autoridade, mandassem executar a estes com o maior sangue frio para desengano de todos, menos deles mesmos, e que o delinqüente vulgar e inexperiente fosse, em muitos casos, julgado, perseguido e castigado pelo delinqüente mais hábil, mais inteligente e mais elevado.
      Equivaleria, enfim, a fazer de Deus, ser todo amor, todo justiça, todo inteligência, um verdadeiro monstro, sem nenhum dos atributos divinos que o Espiritismo lhe reconhece.
      Deus não preestabelece nem predestina os acontecimentos, muito menos os sociais, que estão sujeitos a contingências, sem que por isto contradigam o princípio de causalidade, porque preestabelecer e predestinar são termos que expressam concepções humanas.
      Isto deveria saber os críticos da doutrina espírita por serem muitos deles doutores e filósofos, ou ostentar tais títulos.
      Para Deus não pode existir passado nem futuro, senão um eterno presente, porque sendo infinito em seus atributos, também o é no espaço e no tempo.
      Deus estabelece e determina constantemente os acontecimentos por meio de suas leis sábias e constantes que abarcam todos os fatores concomitantes que contribuem necessária, ou contingentemente à sua realização, entre cujos fatores está, em primeiro lugar, o espírito humano que, longe de ser passivo, é consciente, inteligente e voluntário, ou seja, capaz de determinar-se, de reagir contra o meio social, contra os demais fatores extrínsecos e realizar livremente seu próprio destino, sem que por isto tenha que infringir qualquer lei divina, aja bem ou aja mal, porque suas debilidades e torpezas, como suas virtudes e seus acertos, estão dentro das possibilidades infinitas de Deus, com as que, necessária ou contingentemente o homem realiza, da mesma forma, seus desígnios.
      E assim como as possibilidades de Deus são infinitas, são também infinitas suas leis e infinito o tempo que o espírito humano tem para cumpri-las.
      Para o espírita, contrariamente às deduções dos críticos mal intencionados, o homem é a verdadeira causa atuante, consciente e propulsora da dinâmica social, o fator primordial e essência do desenvolvimento progressivo da sociedade, ao qual se subordinam os demais fatores de ordem material.
      Deste ponto de vista de nossa doutrina, não é, nem pode ser, um simples espectador dos acontecimentos humanos, um contemplador indiferente das dores e misérias de seus semelhantes, um contemporizador com os privilégios, as injustiças, os vícios e as iniqüidades que constituem a base imoral de nossa sociedade; não pode ser um despreocupado das coisas deste mundo, um submisso, um escravo das imposições sociais.
      Não duvidamos de que entre os adeptos do Espiritismo haja simplistas que o creiam assim; mas, neste caso, combata-se esta atitude negativa e humilhante dos homens e não a virtude dos princípios que nossa ideologia ensina.
      Admitimos os espíritas que o mal, o erro, a injustiça, o vício etc. façam parte do plano de nossa existência terrena, como fatores negativos da evolução, mas a eles opomos o bem, a verdade, a justiça e a virtude como seus modos positivos, ambos indispensáveis para o progresso e aperfeiçoamento do espírito sem os quais não é concebível qualquer existência espiritual.
      Mas o conjunto de males, de vícios, de erros e de injustiças, como seus modos positivos contrários, que constituem a trama moral de nossa sociedade, não são mais do que a condição de nosso progresso, o ambiente necessário no qual devemos atuar (e não nos acomodarmos), para nele amenizar nosso espírito; é a resistência natural, em que devemos exercitar nossa energia espiritual, para nosso avanço ascensional.
      A direção moral que traça ao homem o Espiritismo é a de reagir contra as más inclinações, egoísmos e baixezas que há nele e fora dele.
      O Espiritismo não ataca as paixões, a não ser quando estas são baixas e degradam o homem, ou quando são dominadoras e o subjugam e escravizam.
      As paixões, ainda que sejam as geradoras dos vícios mais baixos e deprimentes, também são das maiores virtudes e dos feitos mais nobres e elevados.
      A alma – como bem disse um dos precursores da filosofia espírita, o admirável Platão – vai a uma carruagem puxada por dois corcéis, um branco, dócil, de formas graciosas, representa as paixões generosas de nossa natureza; o outro, negro, de cabeça compacta, com os olhos impregnados de sangue, sempre cheio de cólera, não obedece se não a duras penas ao açoite e ao aguilhão; este representa as paixões baixas.
      A razão sustenta as rédeas da carruagem e se serve habilmente do corcel branco para corrigir os ímpetos do cavalo negro; faz-se senhora soberana de sua parelha, adianta-se com passo firme e seguro através das vicissitudes da vida até abrir as portas da imortalidade.
      Nada melhor que esta bela metáfora do autor de Fedro para expressar o conceito espírita das paixões.
      Com o exposto, cremos ter demonstrado de modo satisfatório a falsidade das apreciações dos que atribuem ao Espiritismo uma moral de passividade e de negação, frente aos problemas sociais e aos assuntos da vida terrena.
      Vamos agora responder ao falso conceito dos simplistas e oportunistas, sobre os quais – seja dito, para alívio dos verdadeiros espíritas – deveria recair toda a responsabilidade das acusações precedentes, porque se balizam, mais que em um mal-entendido da doutrina, em suas interpretações errôneas e em suas inconseqüências.
      Sustentar que o espírita deve amoldar-se ao meio social: conviver com os interesses criados, com os egoísmos, infâmias, os prejuízos e imoralidades e não combater os males e injustiças sociais, nem tratar de aliviar as dores e misérias de seus semelhantes; dizer que cada um ocupa o lugar que lhe corresponde na sociedade e que se deve deixá-lo nesse lugar; que quem sofre é porque fez sofrer anteriormente aos demais e necessita do sofrimento (com o agravante de que há que deixá-lo ou fazê-lo sofrer) para purgar o mal feito; dar por originário em existências anteriores todos os males, todos os abusos, desmandos, crimes, desigualdades e iniqüidades que se contemplam no mundo, tratar de justificá-los e pensar que a condenação e a reação a eles são contrárias ao espírito e à moral de nossa doutrina; significa, mais que uma falsa interpretação, uma falta de lucidez, na consciência dos que em tal coisa creem.
      Se os espíritas sustentassem semelhante monstruosidade moral, a sociedade – pelo menos a parte sã – teria razão suficiente para trancar-nos em um manicômio e só passaríamos por cordatos ante a opinião interesseira dos exaltados, dos egoístas e dos velhacos, e o Espiritismo não serviria mais do que para justificar todas as infâmias e garantir o gozo de uns a expensas da desdita e da dor dos demais.
      Para refutar semelhante absurdo, consideremos primeiro, que Deus pôs um véu em nosso passado para deixar-nos atuar no presente de modo que a recordação do que fomos não seja obstáculo aos nossos esforços para chegar ao que devemos ser, nem nos coloque em condições de inferioridade, uns com respeito aos outros.
      Ignorando, pois, nosso passado, mal podemos justificar nossas diversas situações e incidentes presentes, nem sujeitar-nos a eles.
      Mas sim, por indução, partimos do que somos para poder presumir o que fomos.
      Não temos, por isto, o mesmo direito de deduzir a priori o que ignoramos ter sido, o que temos necessariamente que ser em um momento determinado de nossa existência, ainda mais se se tem em conta nossa liberdade moral.
      Quando raciocinamos a posteriori, partindo de um fato conhecido como é nossa existência atual, há razões poderosas para persuadir-nos, não só do que somos como também do que podemos ou devemos ser de acordo com nosso conceito ideológico da vida.
      Se um homem, por exemplo, me faz um dano, posso, por indução, hipoteticamente, concluir que este dano deve ter uma causa anterior e um efeito posterior, mas não posso partir da causa que desconheço para justificar o efeito conhecido, nem posso supor que este dano tenha necessariamente uma causa anterior, originada por um ato anterior meu, posto que na ordem moral nada nos autorize – nem o Espiritismo nos ensina – a crer na série infinita de causas e efeitos, porque bem pode suceder – e de minha parte estou moralmente convencido de que assim suceda – de que muitas de nossas ações, de nossas situações boas ou más, de nossos sofrimentos e alegrias, têm origem imediata nesta existência.
      Isto já é um motivo para não cair na simplicidade de atribuir a todas as nossas ações terrenas uma causa remota que viria encadeada em uma série de causas infinitas.
      Ainda aplicando este mesmo raciocínio ao princípio de causalidade espírita e admitindo, segundo o conceito simplista, que toda ação ou situação humana presente tem um antecedente causal em existências anteriores e um efeito como conseqüência moral da mesma ação ou situação, isto não provaria, necessariamente, que o mal deva corrigir-se com o mal, a injustiça com a injustiça, a ofensa com a ofensa, porque a lei de causalidade espírita não é unilateral, mas bilateral, ou seja, que um dano recebido pode ser corrigido por parte de quem o faz com um bem equivalente, sem necessidade de sofrer o mesmo mal causado.
      E isto é precisamente o que ensina a doutrina espírita, que difere essencialmente do “olho por olho dente por dente” de Moisés e da moral das religiões e sistemas fatalistas.
      O mal não é, pois, a conseqüência necessária de outro mal, e o espírita não tem o dever de respeitá-lo nem de a ele submeter-se.
      Se um homem, por acaso, está se afogando, não seria razoável nem de bons espíritas entrar em averiguações se essa é a situação que, de acordo com suas ações passadas, lhe corresponde, ou se é ou não merecida; seu dever moral é tratar de salvá-lo.
      Do mesmo modo, se este mesmo homem sofre privações, dores, enfermidades, misérias ou injustiças, causadas pela avareza, o egoísmo e a prepotência amparada por lei, não deve referir-se a ele e dizer-lhe:
      Sofre! Cala-te! Submete-te! Humilha-te!
      Porque tudo isto é conseqüência de faltas análogas cometidas em existências anteriores.
      Deve dirigir-se aos causadores de todos estes males e reprovar sua conduta, fazendo-os compreender que seus atos atuais e seu iníquo proceder terão no futuro conseqüências fatais.
      Não é, pois, olhando para trás, mas para adiante, como deve se conduzir o verdadeiro espírita. Suponhamos que uma pessoa se apresentasse a um destes simplistas que pretendem justificar todos os males do presente por ações do passado e lhe pedisse emprestada uma quantidade de dinheiro para sair de uma situação premente e que, quando este fosse pedir-lhe, a tal pessoa lhe dissesse:
      – Amigo, eu não lhe devo nada; você ainda está pendente de uma dívida comigo.
      – Como? Diria o simplista.
      É a coisa mais natural e espírita do mundo: sucede que em nossa existência anterior eu lhe emprestei uma quantia maior que aquela que você me devolveu.
      E agora, para saldar a conta você deve devolver-me o resto.
      Sem dúvida que o simplista não iria ficar muito de acordo e, no entanto, essa é sua lógica.
      Lógica muito boa para sustentar todas as maldades e patifarias e, especialmente, para fazer frente aos nossos credores.
      A rigor, ninguém ocupa na sociedade o lugar que lhe corresponde ou lhe pertence, senão o que foi conquistado, muitas vezes a expensas da ignorância e da fragilidade dos demais.
      De fato, todos ocupamos um lugar, mas de direito ninguém ocupa o que deve ocupar.
      O lugar que cada um ocupa na sociedade não está prefixado fatalmente; é acidental, momentâneo, um instante passageiro e fugaz de nossa evolução; muda incessantemente, pode e deve mudar todo o impulso de nossa vontade, de nossos sentimentos e de nossos esforços; e o conjunto das vontades, dos sentimentos e dos esforços combinados pode imprimir à sociedade um novo movimento e fazê-la capaz de uma ideologia superior que faça desaparecer muitos dos males e injustiças sociais.
      Não devem cegar-nos nem impedir-nos as posições fortuitas, circunstanciais e passageiras, nem sempre necessárias ou justas, porque a justiça não se cumpre em um instante de nossa evolução, mas no progresso eterno de nosso espírito.
      Lançados como uma flecha no espaço, com um fim ideal e sem solução de continuidade em nosso avanço, não ocupamos jamais um lugar preciso na escala infinita de nossa evolução.
      É por isso que o lugar que nos corresponde no mundo, estamos muito longe de ocupar e creio que jamais o ocuparemos definitivamente.
      Mas há sim, um lugar, que está em nossa consciência, em nossa consciência de espíritas, que é o que sinaliza nossa ideologia e que devemos ocupar em todo momento, elevando-nos sobre todas as mazelas humanas, de todos os convencionalismos, circunstâncias acomodatícias e de todos os interesses egoístas.
      Teremos a liberdade e o valor de dizer nossa verdade, sem ambigüidades nem evasivas, mas também sem ódios e sem rancores de ninguém, considerando que as posições e classes sociais não constituem categorias de ordem moral e que o mal, em qualquer de suas manifestações, depende, acima de tudo, da falta de compreensão e de capacidade para o bem.
      Façamos como o médico filantropo que, se combate as enfermidades, é apenas com o propósito de curar os enfermos.
      Esse é o lugar ideal que, de acordo com a doutrina espírita, nos corresponde ocupar, os que nos temos nutrido de seus sábios e nobres ensinamentos.


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