Publicado por: Espaco Espiritual | terça-feira, 13 novembro 2012

A Visão Espírita do Aborto

A  Visão  Espírita  do  Aborto
 
 Dra.MarleneNobre *
 
 
O aborto é a expulsão de um “concepto” inviável. É esta a denominação
que se dá ao feto que pesa até 500 gramas e cujo comprimento máximo é
de 16 cms. Embora conste da literatura médica o caso de um feto que
sobreviveu tendo um peso de apenas 397 gramas, os dados agora
referidos são os que são aceites para a sua definição.
Sob o ponto de vista médico, há muitas classificações para o aborto,
mas aqui vamos só referir-nos (e resumidamente) ao aborto provocado ou
intencional.
Eticamente, há duas atitudes a tomar perante o embrião. Uma, é a de
quem o considera uma coisa que pode ser descartada, que não tem uma
dignidade intrínseca e da qual se pode dispor sem problemas. Esta é a
ideia do “embrião-coisa”, que predomina na mente das pessoas que
aceitam o aborto. Um exemplo típico desta atitude é a entrevista que
Molly Yard (à época Presidente da Organização Nacional das Mulheres
dos EUA) concedeu à revista brasileira “Isto É/Senhor”, de 23/08/89, e
na qual afirmou: “Num aborto praticado no primeiro trimestre da
gravidez, o que se perde são algumas colheradas de células, mais nada.
Aquilo não tem a menor viabilidade de ter vida independente fora do
útero da mulher.” Esta é a visão distorcida do embrião, que é
difundida pelas militantes pro-aborto – sobretudo pelas feministas –,
com o objectivo de reduzir o extraordinário fenómeno da vida a um
acontecimento banal e sem qualquer importncia.
 
 
Quando se divulga a ideia de que o embrião não é senão uma “colherada
de células”, uma “massa informe”, “aquilo”, ou algo que “pertence” à
mulher, é óbvio que nela está implícita a noção de que é uma “coisa”.
No entanto, científicamente falando, não há nada mais falso! Mas é
óbvio o que se pretende obter com este rebaixamento: procura-se
reduzir o embrião ao estado de “coisa”, para colocá-lo sob a exclusiva
“competência” da mãe e completamente dependente do seu organismo, a
fim de dar à grávida a “autonomia” para decidir se este vive ou morre.
Tenta-se assim justificar o injustificável, isto é, negar ao zigoto (a
célula-ovo) e ao embrião, o direito inalienável à vida!
Calcula-se que na Rússia são praticados cerca de seis milhões de
abortos por ano, e nos Estados Unidos, no mesmo período, um milhão e
seiscentos mil. Portanto, de dois em dois anos, os russos exterminam
uma cidade de 12 milhões de habitantes e os Estados Unidos fazem o
mesmo, mas de oito em oito anos.
A estatística mundial calculada por Steve Jones, director do mais
antigo laboratório de Genética do mundo – o Galton Laboratory –, é
assustadora: anualmente são provocados 60 milhões de abortos, contra
os 90 milhões de crianças nascidas por ano (1).
 
 
Felizmente, há uma segunda atitude: a da personificação. O termo
persona exprime o rosto humano, o aspecto irredutível da sua
personalidade, “o mistério de ser o fim em si mesmo” (2). Deste modo,
a pessoa tem o seu valor intrínseco, a sua dignidade ontológica, que
consiste no simples facto de existir. No caso do “embrião-persona”,
aplica-se-lhe o conceito de pessoa, embora as suas potencialidades não
se tenham ainda desenvolvido. A Bioética Personalista privilegia este
modelo. Neste paradigma, o embrião usufrui de um bem que lhe é
outorgado: o direito à vida.
Do que fica dito, infere-se que as atitudes de “coisificação” ou de
“personificação” do embrião, são as que vão determinar se se aceita ou
não, o aborto provocado.
 
 
As razões científicas contra o aborto
à primeira vista, pode parecer que as razões contra o aborto provocado
estejam exclusivamente ligadas às questões religiosas, mas uma análise
mais aprofundada mostra que estas têm raízes na própria ciência.
Vejamos qual é, para as Ciências da Vida, o verdadeiro significado do
zigoto (a célula-ovo fertilizada).
Para Moore e Persaud (3) “o desenvolvimento humano é um processo
contínuo que começa quando o ovócito de uma mulher é fertilizado pelo
espermatozóide de um homem. O desenvolvimento envolve muitas
modificações que transformam uma única célula – o zigoto – num ser
humano multicelular”. Ainda segundo estes ilustres embriologistas, o
zigoto e o embrião inicial são organismos humanos vivos, nos quais já
estão fixadas todas as bases do indivíduo adulto. Sendo assim, não é
possível interromper qualquer ponto do continuum – zigoto, feto,
criança, adulto, velho – sem provocar danos irreversíveis no bem maior
que é a própria vida.
O caso é que os especialistas conhecem as qualidades da célula-ovo ou
zigoto. Em nenhum outro momento da vida humana se vai ver um
desenvolvimento semelhante: de 130 micrómetros (medida dimensional
histológica), ela passará a um aumento ponderal de dez mil vezes,
apenas nas primeiras 4 semanas. E há muito mais a dizer-se sobre a
célula-ovo porque, em potência, esta contem nela própria todo o
projecto de um novo ser, único e insubstituível.
 
 
A ciência oficial reconhece que não tem uma explicação para o processo
da ontogénese. O Nobel de Bioquímica, François Jacob, afirmou que se
sabe muito pouco sobre os processos reguladores dos embriões e sobre a
sua capacidade de produzir tecidos e órgãos tridimensionais a partir
das sequências unidimensionais existentes nas bases que estruturam os
genes (4).
Dado o espaço, não é possível trazer aqui os outros argumentos que
desenvolvemos no nosso livro “O Clamor da Vida”, tais como os que
retirámos dos estudos sobre a origem da vida e o seu significado
científico, com todas as consequências que daí advêm para as
discussões bioéticas, morais, políticas e religiosas.
Mas pelo exposto, já se pode constatar não ser verdadeira a imagem
passada pelos “opinion makers” (formadores de opinião) e pelas
feministas, de que o embrião é uma massa informe, uma colherada de
células sem importncia. Esta orquestração anti-científica tem um
objectivo muito claro: fazer da vida uma coisa banal, para manipular o
embrião com mais liberdade.
 
 
O respeito pela Lei Divina
Os últimos estudos e pesquisas científicas apontam para uma verdade
clara como o cristal: a vida é um bem outorgado e, portanto,
indisponível.
A “coisificação” do embrião é, por consequência, uma atitude errónea
que precisa de ser revista.
Sendo a vida um bem concedido por Deus, sempre que se interfere para a
destruir, está-se a cometer um crime passível de penalização.
Allan Kardec perguntou aos Espíritos se é racional ter para com o feto
a mesma atenção que se tem para com o corpo de uma criança viva.
Na resposta, os Instrutores Espirituais realçaram a importncia do
respeito que se deve ter pela obra divina mesmo quando ainda está
incompleta, porque esta obedece aos seus desígnios e estes ainda são
insondáveis para nós, seres imperfeitos (5). Salientaram também que o
aborto é um crime (6) porque a mãe, ou qualquer outra pessoa, está a
impedir que essa alma passe pelas provas de que precisa para se
aperfeiçoar, as quais lhe são concedidas através do corpo físico. Os
Instrutores também disseram a Kardec que só é permitido que se
intervenha, quando há um perigo de vida iminente para a gestante (7) e
se se tem a intenção de salvar-lhe a vida e não de destruir o feto –
embora isso possa acontecer como consequência do salvamento. No
entanto, hoje em dia, estes casos são cada vez mais raros devido aos
avanços da tecnologia médica.
 
 
Como é que se pode compreender que a consciência da mulher não a acuse
pelo crime do aborto que está prestes a cometer?
Por que é que ela expulsa o feto que abrigou nas suas entranhas,
contrariando assim todos os sentimentos (para os quais foi
psiquicamente construída durante milhões de anos de evolução) e
concretiza essa violência contra si própria?
Sabemos que há inúmeros factores que levam a mulher a cometer um
aborto, mas os que inegavelmente têm mais peso são a falta de
informação quanto ao seu próprio corpo e às possibilidades de um
planeamento familiar, e o egoísmo, agravado por uma visão hedonista da
vida. Nós, que ficamos horrorizados por pensarmos que podemos pisar um
ovo de pássaro e destruir a avezinha que está lá dentro a desenvolver-
se, somos levados a acreditar – através do raciocínio materialista –
que o embrião humano não tem nenhum valor, pelo que pode ser
extirpado, sem que os responsáveis tenham qualquer problema de
consciência.
E não podemos esquecer-nos de que o gesto intencional que determina a
morte do feto é um dos mais cruéis e cobardes, porque a vítima não se
pode defender…
 
 
Consequências psicofísicas e espirituais
Embora a maternidade tenha um apelo acentuado no psiquismo da mulher,
a razão nem sempre é um guia infalível e o resultado é que a mãe acaba
por praticar o acto violento contra o filho e contra si própria,
quando todo o seu ser foi construído para resguardar a vida que se
desenvolve no seu seio. Nos casos do aborto provocado, a razão é
deturpada “pela má educação, pelo orgulho e pelo egoísmo” (8).
Devido à pressão do homem que não assume a paternidade – por vaidade e
interesses egoístas – ou pelo facto de dar ouvidos a informações
erróneas, como a de que o feto é um amontoado de coágulos de sangue, a
mulher acaba por abafar a voz da consciência e expulsar o ser que
devia proteger e defender até ao nascimento, numa missão para a qual
foi preparada – por repetição atávica – há milhões de anos.
Quando o aborto é provocado, tanto a mulher como os outros implicados
nessa prática, faltam ao respeito à Lei Maior que governa o Universo e
ficam sujeitos, como é natural, às sanções da Justiça Superior. Assim,
todos vão sofrer penalizações, embora as aplicadas à mulher sejam as
mais rigorosas, por ter sido a ela que Deus confiou, mais
directamente, a missão de preservar a vida.
 
 
Em termos didácticos, diremos que há dois períodos para as
consequências orgnicas, psicológicas e espirituais do aborto: as que
surgem na mesma existência em que este foi praticado, e as que vão
aparecer numa vida posterior.
A obsessão espiritual é um dos danos mais frequentes e catastróficos
que costumam acontecer à maioria dos homens e mulheres envolvidos no
crime do aborto. Os espíritos impedidos de nascer passam a exercer
(geralmente a partir da consumação do acto), uma influência negativa
sobre os responsáveis pela sua frustração. Tanto a mulher, como o seu
companheiro e também a equipa médica, passam a ser alvo de acções
espirituais vingativas na mesma existência em que estiveram ligados a
essa prática.
Outra consequência muito habitual do aborto, na mesma existência, é a
depressão. Os estados negativos de humor, com o seu cortejo de
fenómenos e sinais caracterizados principalmente pelo estado de
tristeza, estão presentes na vida de muitas mulheres que o praticaram.
A analista e seguidora de Carl Jung, Hanna Wolff, pôde constatar ao
longo da sua carreira de terapeuta esta ligação entre aborto e
depressão. Afirma ela: “A facilidade com que hoje se pode abortar, é
precisamente a causa das depressões de imensas mulheres na menopausa.
Aquelas que antigamente eram as primeiras a defenderem o direito de
“gerirem o próprio corpo”, são as que vamos encontrar agora de rastos,
mergulhadas na sua própria infelicidade. A psique não conseguiu
superar a selvajaria do aborto. Sobre isto os legisladores nada
percebem e muito menos os “especialistas” a que estes mesmos
legisladores recorrem para resolver o assunto” (9).
Mas, e quanto à mulher que reconhece – ainda durante a encarnação – as
dívidas que contraiu por ter feito um aborto? O que deve fazer para
tornar-se moralmente melhor, antes de que venha a morte?
 
 
A esta pergunta, feita por muitas mulheres, respondem os Benfeitores
Espirituais: “Quem abandonou os próprios filhos, pode hoje afeiçoar-se
aos filhos alheios, precisados de carinho e de abnegação. O próprio
Evangelho do Senhor, através das palavras do Apóstolo Pedro, previne-
nos quanto à necessidade de criarmos uma intensa caridade entre uns e
outros, porque a caridade cobre a multidão dos nossos pecados.” (10)
 
 
* médica ginecologista, escritora e presidente da Associação Médico-
Espírita do Brasil (AME) e da AME Internacional.
 
 
Bibliografia
(1) – A Linguagem dos Genes, cap. 15
(2) – Embriologia Básica – Moore, Persaud, p.2, Ed. Guanabara Coogan,
5ª ed., 2000
(3) – La Bioéthique et la Dignitée de la Personne, cap. II, p.34
(4) – Dieu, Existe-t-il? Non répondent…pp.64, 65 e 66 e Conexão
Cósmica, de Ervin Lazlo, pp.98 e 99
(5) – O Livro dos Espíritos, Pergunta 360 Allan Kardec, Ed. FEB
(6) – O Livro dos Espíritos, pergunta 358
(7) – O Livro dos Espíritos, pergunta 359
(8) – O Livro dos Espíritos, pergunta 75
(9) – Jesus Psicoterapeuta, pp. 111, Ed. Paulinas, 2ª. ed. – 1990
(10) – Evolução em Dois Mundos, cap. XIV, psicografia Chico Xavier,
Espírito André Luiz, Ed. FEB, 2ª. ed.
 
Fonte:
Associação Médico-Espírita de Portugal (AMEPor

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