Publicado por: Espaco Espiritual | quarta-feira, 24 julho 2013

CHICO E O POVO

chico xavier

CHICO E O POVO

No dia 6 de marco de 1981, em plena campanha do Nobel da Paz, o repórter Fenelon Almeida, do  jornal O Povo, de Fortaleza, Ceará, veio a Uberaba e acompanhou Chico Xavier em dois dias, nas reuniões de sexta-feira e sábado, no Grupo Espírita da Prece. A reportagem retrata com impressionante fidelidade como era o final de semana do médium. Impossível que a deixemos esquecida nos arquivos do jornal cearense:

CARISMA QUE ATRAI MULTIDÕES

Normalmente, as atividades públicas de Chico Xavier são exercidas somente nos fins-de-semana. Nesses dois dias — sexta e sábado — ele se desdobra, num esforço físico incomum a pessoas de sua idade (71 anos). Disseram-me que esse intenso e estafante programa semanal é uma rotina a que ele vem se submetendo há muitos anos, com pequenas e eventuais alterações, quando impostas pelo seu já debilitado estado de saúde.

Ao meio dia daquela sexta-feira, já se notava uma pequena fila em frente do portão principal do Grupo Espírita da Prece — uma casa singela, mas espaçosa, para esse fim adaptada, situada na Avenida João XXIII, 1495, num bairro pobre de Uberaba, a poucos quarteirões da estação rodoviária. Viam-se, ali, algumas pessoas bem-vestidas, outras mal-trajadas, num só desejo: serem levadas à presença do médium Chico Xavier.

Duas horas mais tarde, aquele filete de gente já se havia transformado num caudal humano de centenas de homens e mulheres de procedência social diversa e oriundas de diferentes Estados da Federação Brasileira.

Na sua maioria, seguidores do Espiritismo. Mas havia também os que professavam outros credos religiosos. Ecumenicamente, todos se sentiam atraídos pelo carisma de que o médium de Pedro Leopoldo se reveste aos olhos do povo. Todos o admiram, nele acreditam e dele tudo esperam.

Essa, talvez, a razão por que ele faz questão de atender o número elevado de amigos que o procuram. De certo, fidelidade àquele princípio ditado por Emmanuel de que “um dos maiores pecados do mundo e diminuir a alegria dos outros.”

Mas nem todos os que ali se encontravam tiveram trânsito livre para transporem o portão e se aproximarem do Chico. O sinal verde abriu, mas somente para os 60 primeiros, por ordem de chegada. Os retardatários teriam de contentar-se com o deixar o seu nome, inscrevendo-se para a semana seguinte, ou abdicarem daquele desejo impossível para os que não tivessem condições de permanecer em Uberaba, à espera, durante mais sete dias. Muitos deles eram peregrinos que tinham vindo de longe — do Rio de Janeiro, de Manaus, de Mato Grosso ou de Teresina, no Piauí.

Passaram dias inteiros viajando, alimentando-se mal e dormindo pouco, e não seria assim diante do primeiro obstáculo que iriam desistir do desejado encontro com o médium. Ficariam, sim. Estavam resolvidos a esperar!

Rodeado de Povo

Atravessaram o portão apenas 60 postulantes ao cobiçado diálogo. Cada um deles podia falar pessoalmente com o médium, mas durante apenas dois minutos — tempo considerado absolutamente suficiente para cada um expor o seu problema e ouvir o conselho solicitado. O Chico já os esperava, sentado num dos bancos da espaçosa sala do centro espírita, onde era vista, também, uma grande mesa central rodeada de cadeiras.

A porta principal da sala dá para um pátio, metade do qual mais se assemelha a uma varanda coberta, onde também estavam colocados, à disposição do público, numerosos bancos de madeira. A outra metade do pátio fica ao ar livre, com alguns bancos esparsos distribuídos pela sua área, à sombra de árvores de pequeno porte e contornando os canteiros de flores que servem de ornamento àquele templo espírita.

Enquanto, no salão, se realizava a audiência pública do médium, no pátio, literalmente repleto, uma fila logo chamou a atenção do repórter. Dentro de muita ordem e num silêncio permanentemente vigiado, essa coluna humana se encaminhou lentamente para uma mesinha colocada num dos cantos da varanda, onde uma mulher de meia-idade colaborava com o andamento dos trabalhos, anotando, em fichas individuais, nome, idade, endereço e demais dados referentes à pessoa que desejava obter uma consulta médica, cuja terapêutica seria prescrita, horas mais tarde, por algum médico do Astral, por intermédio do próprio Chico Xavier em transe mediúnico.

Enquanto isso, na sala, Chico Xavier continuava a ouvir as solicitações dos que dele se acercavam, virando-se de um lado para outro, como num confessionário, dirigindo-se ora a um, ora a outro interessado, alternadamente, durante horas seguidas, sem deixar de dar atenção a todos. Quando era o caso, ele tomava apontamentos, a lápis, num bloco de papel que tinha à mão, apoiado numa prancheta.

Finda a audiência pública, ele se encaminhou para os cumprimentos a um grupo de amigos e a alguns convidados especiais, entre os quais se encontravam o Presidente da Academia Municipalista de Letras, de Minas Gerais, o Bispo D. Fernando Pugliesi, da Igreja Católica Brasileira, alguns membros da caravana cearense, como Ary Leite, Edynardo Weine e o repórter de O Povo. Ali havíamos ingressado desde as primeiras horas da tarde, em caráter excepcional, pois somente às 18 horas o portão é aberto ao público em geral. Essa primazia nos foi concedida — a eles porque são dirigentes espíritas, e a mim como simples repórter de um grande jornal.

Chico Xavier está cego de um olho e com apenas 20 por cento da outra vista. Mesmo assim, ainda lhe sobrava perspicácia para reconhecer, num relance, pessoas que com ele voltassem a encontrar-se, como foi o caso com os cearenses Ary e Edynardo e com o Presidente da Academia Mineira, que o não via há mais de 20 anos.

Roteiro Espiritual

Pouco antes das 18 horas, Chico Xavier sentou-se à cabeceira da mesa, para presidir a abertura da sessão evangélica do Grupo Espírita da Prece. Ele próprio selecionou dois trechos dos livros sacros do culto espírita — O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos — obras consideradas basilares da Doutrina Espírita. Escolheu-os para serem lidos e servirem de base às prédicas que seriam proferidas, na ausência do médium, pelos componentes da mesa. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ele escolheu o capitulo 5°, que trata das Bem-Aventuranças, isto é, do chamado Sermão do Monte, proferido por Jesus, o Nazareno, e cuja reprodução textual foi deixada para a posteridade pelo evangelista Mateus, sem dúvida o maior repórter de todos os tempos. Em O Livro dos Espíritos, o trecho escolhido foi o capítulo l do Livro Quarto, que trata da felicidade e infelicidade (relativas) do homem aqui, na Terra.

Deixada essa pauta, traçado esse roteiro, Chico Xavier afastou-se da mesa e recolheu-se a um pequeno compartimento situado no fundo do salão principal — a chamada Tenda do Receituário. Ali ele deveria permanecer durante muitas horas seguidas. Acompanharam-no o Sr. Weaker Batista e D. Zilda, dois auxiliares prestimosos do médium, um casal que vem dedicando grande e desinteressada ajuda aos trabalhos públicos do Chico há vários anos.

Enquanto durou a ausência do médium, outros membros do Grupo Espírita da Prece assumiram a direção dos trabalhos, que decorreram normais. A mesa me pareceu um tanto eclética, pois nem todos os que a formavam eram iniciados na Doutrina Espírita. Além de profitentes espíritas residentes em Uberaba e de alguns visitantes de outras cidades, entre os quais incluo os dois já citados representantes da caravana cearense, anotamos, ainda, a presença do Bispo Pugliesi e da jornalista Marlene Rossi Severino Nobre, de São Paulo, esposa do também jornalista e político cearense, deputado José de Freitas Nobre, representante do povo paulista e atuante líder do PMDB no Congresso Nacional. Marlene e Freitas Nobre, diretores da Folha Espírita, jornal mensário editado em São Paulo e com circulação em todo o País, são amigos fraternos de Chico Xavier.

Todos os componentes da mesa, inclusive o Bispo visitante, fizeram uso da palavra no decorrer da sessão. Teceram considerações sobre aqueles temas de moral e de filosofia religiosas deixados pelo Chico, com o principal objetivo, conforme vim a saber mais tarde, de manter-se “um elevado padrão vibratório no ambiente e contribuir, fluidicamente, para maior êxito dos trabalhos” daquela noite.

Nessa hora precisa, outra fila começou a formar-se, no pátio, dirigindo-se, menos lenta que a primeira, a uma outra saleta conjugada à grande sala de reuniões públicas. Ali, um ou mais médiuns menores, em estado de concentração psíquica, ministravam a cada pessoa “passes fluídicos”, magnéticos, com a aposição das duas mãos espalmadas sobre a cabeça dos interessados.

 Medicina no Astral        

Enquanto no salão se desenvolvia a sessão evangélica, no quarto do receituário, ao qual ninguém poderia ter acesso, a não ser o casal que com ele permanecia naquele momento, servindo-o, Chico Xavier continuava em transe mediúnico, dando atendimento ao grande volume de pedidos de receitas médicas. Naquela noite, esse número ultrapassou em muito a casa de uma centena.

Tive satisfeita a minha curiosidade de ver algumas dessas receitas da Medicina astralina. Estavam assinadas por nomes para mim desconhecidos, todos médicos da Espiritualidade, dentro os quais se sobressaía, pela constância no atendimento a um número maior de consulentes, o Dr. Bezerra de Menezes —Adolfo B. de Menezes — médico cearense que viveu na capital do Império, onde se notabilizou por seus gestos de amor aos mais necessitados, cognominado, por isso, o Médico dos Pobres. Bezerra de Menezes tornou-se também um estudioso impenitente do Espiritismo Científico e um diligente praticante e divulgador da Doutrina Espírita, cujos destinos, no Brasil, por mais de uma vez, estiveram sob a sua direção, sendo ele, hoje, comumente chamado o Kardec Brasileiro.

O receituário mediúnico é psicografado na metade inferior da ficha em que foram anotados nome, idade e endereço do consulente. O Chico, geralmente, escreve a prescrição médica no anverso e no verso da parte inferior, deixando a parte superior somente com os dados indicativos da identidade e o endereço residencial do consulente. É uma precaução conscientemente deliberada, para, uma vez concluída a receita, dividir-se o papel ao meio, transformando-o em duas fichas, a primeira, indicadora dos elementos de identificação do paciente e, a parte restante, da receita propriamente dita. Feito isso, elas são grampeadas uma à outra, antes de serem entregues aos seus destinatários.

O receituário é predominantemente homeopático. Havia, porém, alguns casos de Medicina mista, de indicação complementar de algum medicamento alopático. Além da prescrição medicamentosa, há, quase sempre, uma mensagem de fortalecimento moral ou de orientação espiritual dirigida ao doente. Àqueles cuja saúde física não inspira cuidados especiais, ou, ao contrário disso, àqueles que estão em situação muito grave (os chamados “casos perdidos”), não há indicação de qualquer remédio. Apenas algumas vitaminas são recomendadas ou um fortificante qualquer, mas sem esquecer um lembrete, uma simples frase, como esta por mim observada e que pode perfeitamente servir de “tranquilizante”, de advertência ou simples encorajamento: “Dentro de todos os recursos ao nosso alcance, buscaremos cooperar espiritualmente em vosso favor. Jesus nos abençoe”. Nada mais estava escrito ali.

Em intervalos regulares, as mensagens (receitas) recebidas por Chico Xavier são introduzidas numa abertura, ou melhor, numa fenda aberta na porta. Vão cair, no outro lado, depositadas numa espécie de escaninho, de onde são retiradas por uma pessoa incumbida de as levar aos interessados, que as recebem, no pátio da casa, à medida que são lidos em voz alta os nomes dos consulentes que obtiveram atendimento. Às vezes, ficam consultas sem resposta, sendo automaticamente transferidas para a próxima sessão, na semana seguinte. Naquela sexta-feira, 23 de janeiro de 1981, Chico Xavier permaneceu na Câmara do Receituário durante mais de seis horas seguidas — das 18 até depois das 24 horas.

Recados do Além

Concluído o receituário, Chico Xavier voltou ao salão e reassumiu o seu lugar à mesa. Já era 24 de janeiro de 1981. Cumpridos aqueles minutos ou segundos iniciais de concentração mental que precedem as manifestações medianímicas, ele começou a psicografar. Uma atmosfera de recolhimento e de fé religiosa envolvia a todos os presentes, cujo estado de espírito parecia mais acentuar-se em vibrações de pensamento positivo, quando passou a ser ouvida uma música em surdina, uma ária instrumental apropriada a momentos, como aquele, de profunda meditação.

A um lado do grande psicógrafo sentara-se o Sr. Weaker, incumbido de municiá-lo de papel e lápis, quando se fizessem necessários (dezenas de lápis e centenas de folhas tipo ofício, sem pauta, foram utilizadas naquela noite). Do outro lado, D. Zilda, encarregada de retirar as folhas, à medida que elas fossem sendo escritas.

Com a mão esquerda espalmada sobre os olhos já embaçados por uma cegueira quase total e a outra a segurar um lápis, o médium passava para o papel, em grafia fluente, num ritmo impressionantemente rápido, torrentes de pensamentos que lhe passavam pelo cérebro, mas que não eram seus: partiam de fontes para ele de certo não muito distantes, que nós, espectadores, sentíamos serem até facilmente sondáveis, mas só para ele, pois que, para nós outros, se perdiam no imponderável do lncognoscível. Eu não tive do que duvidar em Chico Xavier. Porque eu o vi a psicografar sem parar, durante quase três horas seguidas — de zero hora e trinta minutos até depois das três horas da madrugada do dia 24 de janeiro de 1981, enchendo folhas e mais folhas com mensagens mediúnicas. Por duas vezes, sem parar ou sequer diminuir o movimento automático de suas mãos, qual a fonte de uma máquina de saída IBM a deslizar vertiginosamente de um para o outro lado do papel, Chico Xavier chorou copiosamente. Eu vi as lágrimas que lhe desciam, ainda quentes, pela gola do paletó. Por considerar não me ser lícito nem talvez possível desvendar o mistério daquelas lágrimas, nada lhe perguntei sobre tal ocorrência, quando o entrevistei, na noite daquele dia.

Concluída a psicografia, desenhou-se uma expectativa geral no salão. Pronunciada a prece de encerramento da sessão, Chico Xavier imediatamente passou a examinar o volumoso material psicografado. Separou as páginas, mensagem após mensagem. A primeira — uma página doutrinária de Emmanuel — foi lida ao microfone do sistema de alto-falantes do Grupo Espírita da Prece. Seguiram-se sete outros bilhetes procedentes  do Além, enviados por pessoas que já deixaram o mundo terráqueo — que já desencarnaram, em termo de vocabulário espírita. Ao ser pronunciado o nome de um dos comunicantes, apareceram no seio da massa alguns familiares seus, um dos quais se foi colocar, de pé, à esquerda do Chico, enquanto este fazia a leitura, para ele, à meia-voz, do texto da mensagem recebida. Terminada a leitura, o original foi entregue aos familiares do morto, que resolverão, por livre julgamento, se divulgarão ou não o teor da carta que lhes foi confiada.

A leitura dos recados restantes prosseguiu até 4 e meia da manhã, quando o movimento no Grupo Espírita da Prece já estava sensivelmente reduzido.

Naquela tarde/noite/madrugada de 23/24 de janeiro de 1981, Chico Xavier realizou mais uma jornada pública de trabalho, empreendendo uma maratona de 15 horas consecutivas de ininterrupta atividade.

Outra trabalheira o esperava para a tarde/noite daquele novo dia.

Poetas Cearenses em Noite de Gala

Cidadão cearense.

Chico Xavier recebeu-nos na varanda de sua casa. Sentou-se ao nosso lado, sem a presença de seus auxiliares, colocando-se inteiramente à disposição de todos nós, num diálogo informal, descontraído. E cordial, porque, como começo de conversa, ele fez questão de ressaltar o seu interesse por tudo que é cearense. Disse que bem gostaria de vir ao Ceará com aquela caravana.

Ele sabe que é cearense honorário, título esse concedido há vários anos pela Assembleia Legislativa do Ceará, mas que ele ainda não veio receber. Garantiu que não haveria de desapontar-nos por mais tempo; que não vai continuar a cometer “a grosseria de privar-me, a mim próprio, de tão honrosa cidadania”. Prometeu vir à Fortaleza desincumbir-se dessa “obrigação”. Depende, apenas, de ele criar um pouco mais de coragem para enfrentar uma viagem aérea. Ele disse apenas meia-verdade, porque também sabíamos não ser dos melhores o seu atual estado de saúde, o que talvez mais o impossibilite de empreender viagens longas. Mas ele prometeu. E, quando o Chico promete — dizem os seus amigos —, não há força humana que o faça voltar atrás.

Confessou que gostaria de residir no Sudoeste do Ceará, em plena região flagelada pela seca, transportando água na cabeça, “junto com os meus irmãos sofredores”. Recordou que já fez muito disso, quando era garoto, em sua cidade natal de Pedro Leopoldo, indo apanhar latas d’água e trazê-las na cabeça, de longa distância. O repórter disse que, no Ceará, ele seria chamado “cabra da peste”. Chico respondeu, gracejando: “Então, eu sou a peste do cabra”.

Tarde de Autógrafos 

Aproveitando o clima fraternal que estávamos respirando, comecei, naquele instante, a entrevistar Chico Xavier. Sem deixar de responder a uma só de minhas perguntas, ele tratou de questões sociais e políticas realmente importantes, revelando uma outra dimensão deste que é candidato por várias nações ao Prêmio Nobel da Paz em 1981… 

lnterrompida em meio à entrevista, por força de exiguidade de tempo naquele horário, Chico prometeu dar-lhe continuidade à noite, no Grupo o Espírita da Prece. E passou a autografar livros, às dezenas, todas obras por ele psicografadas, que os caravaneiros traziam para si e para presentear amigos e parentes. Atendeu todos os pedidos e ainda fez questão de oferecer a cada um de nós um exemplar do livro de Emmanuel, Algo Mais*, em edição recente. Insistiu em escrever, em cada volume, fraterno oferecimento nominal. Disse que é preciso haver amor em toda oferenda que se faz.

Enquanto dava prosseguimento aos autógrafos, ele descreveu algumas de suas experiências com Emmanuel, incluindo comentários que pediu mantivéssemos em caráter confidencial.

Comentou a opinião que a Primeira Dama do Ceará, Sra. Luiza Távora, expendeu sobre sua pessoa, nas páginas do periódico cearense Manhã de Sol, o que, para ele, revelou a estatura espiritual de D. Luiza. Pediu-nos, então, entregar à Sra. Távora um exemplar autografado da obra de Emmanuel, Paulo e Estêvão**, como sinal de reconhecimento pelo muito que ela vem fazendo em defesa dos direitos dos favelados de Fortaleza.

Enquanto os caravaneiros recebiam livros, havia rápidos diálogos e eram feitas fotografias de lembrança. Os quatro motoristas dos ônibus da Expresso de Luxo receberam também seus exemplares autografados e posaram com Chico Xavier, numa foto que lhes será memorável.

Chico procurou manter-nos em sua companhia por mais tempo. Ofereceu-nos chocolates e pediu para que não nos afastássemos de imediato; que permanecêssemos em sua casa, circulando livremente, até o momento em que, todos juntos, retornássemos ao Grupo Espírita da Prece.

Casamento e Caridade 

Quando ali chegamos, o salão já estava repleto. A mesa, os componentes habituais e mais alguns convidados, incluindo-se membros da caravana. Mas, a rigor, conforme observação do Sr. Weaker, “num templo espírita todos fazem parte da mesa”.

A sessão teve início logo depois das 19 horas. Presidiu-a, como sempre, o próprio Francisco Cândido Xavier, tendo à sua direita o Sr. Weaker com o seu arsenal de lápis, e, à esquerda, D. Zilda com a sua prestimosidade. Foi o próprio Chico quem escolheu e anunciou os temas para reflexão. O Evangelho Segundo o Espiritismo*** foi aberto no capítulo XXII, que tem este título: “Não Separeis o Que Deus Juntou”. Trata-se da indissolubilidade do casamento e do divórcio. Chico Xavier recomendou o texto n° 3. Levando em conta tratar-se de um assunto de palpitante atualidade, aqui o transcrevo, no seu trecho principal: “Na união dos sexos, ao par da lei divina material, comum a todos os seres vivos, há outra lei divina, imutável como todas as leis de Deus, exclusivamente moral: a lei do amor. Quis Deus que os seres se unissem não só pelos laços da carne, mas também pelos da alma, a fim de que a afeição mútua dos esposos se transmitisse aos filhos e que fossem dois, e não um somente, a amá-los, a cuidar deles e a fazê-los progredir”.

De O Livro dos Espíritos**** foi extraído o segundo tema. Da Parte Terceira, capitulo XI, a pergunta 886, que indaga sobre “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus?”. Esta a resposta, cujo texto foi levado em consideração pelos que estavam presentes à reunião: “Benevolência para todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”.

Tomados tais preparativos, foi feita a prece de abertura dos trabalhos e começou a preleção acerca dos temas indicados, a cargo de uma jovem profitente espírita pertencente à melhor sociedade de Uberaba.

Nesse instante exato, Chico Xavier começou a psicografar…

Cerca de meia hora depois, em dado momento, a expositora do tema bíblico comoveu-se e chorou. Vimos quando ela parou de falar, a voz embargada pela emoção. Depois, pediu desculpas e continuou. Mais tarde, corriam pelo salão insistentes rumores de que, no momento exato em que a moça foi vítima daquela inesperada crise sentimental, Chico Xavier estava grafando uma mensagem a ela dirigida.

Terminada a preleção, todos permaneceram em seus lugares, num silêncio total, enquanto o médium continuava a psicografar. Havia música ambiente.

Concluída a psicografia, a música também parou. Fez-se a prece de encerramento, passando-se, em seguida, à leitura das mensagens recebidas.

Poetas Cearenses

Inicialmente, foi solicitado à jornalista Marlene Nobre, que também é médium e estava à mesa, que lesse a mensagem por ela recebida — fato que aconteceu no decorrer da sessão, simultaneamente com o trabalho psicográfico de Chico Xavier. Era uma página de André Luiz*****, pseudônimo que oculta o verdadeiro nome de um médico brasileiro que viveu no fim do século passado/começo do presente, autor de numerosos livros psicografados por Chico Xavier e pelo médium, também médico, Waldo Vieira.

A seguir, Chico Xavier passou à leitura da primeira mensagem por ele recebida, assinada por Alzira, endereçada a companheiras espíritas que tratam de obras sociais voltadas para a criança. Diz a missivista que a sua maior preocupação é por ter constatado, nas causas dedicadas à criança, haver frequentemente a ausência de Deus.

A segunda mensagem foi de uma criança, dirigida do outro lado da vida aos seus familiares aqui, na Terra, alguns dos quais, por sinal, se encontravam à mesa, naquele instante.

Por fim, Chico Xavier passou a ler numerosas produções literárias, quadras poéticas, trovas, a primeira das quais subscrita por Lívio Barreto. A simples anunciação do nome do poeta fez-me crescer a curiosidade de jornalista e despertou-me interesse, o que é normal a todo bom cearense que ouve falar de sua terra ou de algum filho ilustre que soube amá-la e enobrecê-la, como o fez Lívio Barreto. Ouvidos apurados, não perdi um verso sequer das trovas que, sob o título geral Laços e Enlaces, foram lidas por Chico Xavier. Uma galeria importante! Tomem nota: Lívio Barreto, Quintino Cunha, Gil Amora, Joaquim Magalhães, Irmão do Mestre Telles, Jovino Guedes, Álvaro Martins, José Carvalho, Carlos Gondim, Ulysses Bezerra, Hugolino Costa, Lopes Sá, Juvenal Galeno, Leonardo Motta, Sinfrônio Pedro Martins.

Joias Literárias

Como não podia deixar de acontecer, as trovas foram recebidas com entusiasmo pelos membros da caravana cearense e pelo público em geral. Havia um bom-humor generalizado por toda a sala.

Quando terminou a leitura, Chico Xavier acrescentou: “O Dr. Bezerra está dizendo que todos são cearenses”.

Alguém comentou em voz alta: “A festa dos cearenses foi completa, pois se realizou nos dois planos da vida”.

Seguiram-se comentários do Chico e esclarecimentos, prestados por Ary Leite, Edynardo Weine e este repórter, a respeito de alguns dos poetas manifestantes. Chico Xavier perguntou o que é a Praça do Ferreira, à qual se refere Carlos Gondim…

Na ocasião seguinte, ele pediu permissão para retirar-se ao quarto vizinho, onde iria passar a limpo o texto completo das páginas dos poetas cearenses. Regressou, minutos depois, trazendo, em folhas manuscritas, com a sua própria letra, as 15 joias literárias que só os céticos irão negar a autenticidade de sua verdadeira autoria. Chico entregou-as ao repórter de O Povo, com a seguinte recomendação: “Estão aí. Faça uma revisão bem feita e publique-as no seu jornal”.

Ainda sob os efeitos de tantas e tão agradáveis emoções, os caravaneiros cearenses, em número de quarenta, decidem retirar-se, a fim de empreenderem a grande viagem de volta. Chico Xavier permaneceu de pé, recebendo os cumprimentos de despedida de cada um.

Quando se afastou o último, ele voltou-se para o repórter e disse: “Agora vamos à nossa entrevista inacabada”. E concluiu-a, sob vistas e ouvidos atentos dos restantes componentes da mesa e de uma legião de amigos que dele se acercavam naquele momento.

Quando os ônibus a serviço da Vematur, estacionados defronte ao prédio humilde do Grupo Espírita da Prece, partiram de regresso a Fortaleza, eram 22 horas e 38 minutos. Chico Xavier teria ainda pela frente longas horas de trabalho missionário, de atendimento fraterno a dezenas de brasileiros, procedentes de todos os quadrantes do País, que ali aguardavam a sua vez de também abraçá-lo e poder falar com ele.

Foi assim que eu vi o maior médium psicógrafo de nossos tempos — Francisco Cândido Xavier, campeão da humildade e um portento de amor aos que dele se aproximam.”

A seguir, o texto do jornalista Fenelon Almeida, apresentando as trovas dos poetas cearenses que, na oportunidade, escreveram por Chico Xavier.

“Estas, as trovas recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier, em reunião pública do Grupo Espírita da Prece, em Uberaba, Minas Gerais, na noite de 24 de janeiro de 1981, realizada com a presença da reportagem de O Povo e da caravana cearense, em visita a Chico Xavier e à cidade de Uberaba, procedentes de Fortaleza, a 3.339 quilômetros de distância, numa viagem realizada por terra, em ônibus especiais, sob a organização do periódico Manhã de Sol, da imprensa espírita brasileira, editado na capital cearense.”

Laços e Enlaces 

Por mais que a dor amordace

Quem ama e vive a sofrer,

No enlace ou fora do enlace,

Ama sempre até morrer.

Lívio Barreto

Conceito claro e profundo

Que se eleva sem se impor: 

A casa é feita no mundo

E o lar é feito no amor.

Quintino Cunha 

Duas almas, quando unidas,

Mesmo entre rudes labéus,

Vencem milênios e vidas,

Seja na Terra ou nos Céus.

Gil Amora

O espírito escolhe o corpo

Que o servirá no porvir,

Somente quando merece

Certa missão a cumprir.

Joaquim Magalhães

O obsessor na mulher

Que o guarda, mimado e aceito,

Nasce dela como quer

E vive de qualquer jeito.

Irmão do Mestre Telles

O amor em duas pessoas

De tal forma se condensa,

Que, enquanto uma delas fala,

Reflete o que a outra pensa.

Jovino Guedes

Na afeição — mistério vivo —,

Vejo as fotos como são…

O namoro é o negativo,

Enlace é a revelação.

Álvaro Martins

Muito amor que se conquista

Lembra o rifão justo e raro:

— “Quem a paca cara compra

Pagará a paca caro”.

José Carvalho

Lá na Praça do Ferreira

Vejo muitos laços loucos,

Muito amor na choradeira,

Casamentos, muito poucos.

Carlos Gomlim 

Se amor é luz infinita

Ninguém me indague ou confunda.

Deixo esta nota esquisita

Ao nobre Joaquim Catunda.

Ulysses Bezerra

Não entendo as novas tranças…

Matrimônio regredindo

E, em matéria de crianças,

O número vai subindo…

Hugolino Costa

Casamento, belo encanto,

Lembra um livro, amigos meus.

A família é o texto santo

E o índice está com Deus.

Lopes Sá

Regressando a novo corpo,

E usando amor e juízo,

Desejo casar, na Terra,

Quantas vezes for preciso.

Juvenal Galeno

Com todos os meus pertences

Trago, contente e janota,

Aos meus irmãos cearenses

Grande abraço do Leota.

Leonardo Motta

Mesmo ante a grita do povo,

Haja seca onde se vá,

Eu quero nascer de novo

Na Terra do Ceará.

Sinfrônio Pedro Martins

Livro:  100 Anos de Chico Xavier – Fenômeno Humano e Mediúnico

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