Publicado por: Espaco Espiritual | sexta-feira, 8 novembro 2013

Memórias de um Toxicômano

Memórias de um Toxicômano

Memórias de um Toxicômano

                   Memórias de um Toxicômano

Psicografado por Marcos Alberto Ferreia

Tiago é um típico adolescente brasileiro envolvido com o vício das drogas.Após seu desencarne, narra os mecanismos e facções criminosas que dominam o tráfico de drogas no astral e como os jovens encarnados podem ser aliciados, e o que acontece quando se arrepende e se busca uma saída, os desafios encontrados durante sua internação e desintoxicação e os malefícios das drogas, que transcendem o mundo das formas.

Memórias de um Toxicômano

Drogas – da ilusão à realidade

O caminho pelo qual deveríamos passar era muito difícil. Em alguns lugares, escorria água por uma encosta lateral que tornava bastante escorregadias as pedras da trilha. Tomávamos bastante cuidado e nos apoiávamos uns nos outros.
Muitas horas se passaram e tínhamos caminhado bem pouco. Estávamos todos cansados. O ar era de difícil respiração, a atmosfera pesada, a paisagem seca, muito seca.
Mesmo com a umidade do caminho, a paisagem se formava por esqueletos de árvores secas. No chão, em volta, apenas terra e muita poeira, liberada ao sabor do vento. As rajadas de vento, quase sempre repentinas e inesperadas, eram assustadoras.
Prosseguíamos, no entanto, certos de nosso objetivo e dispostos a realizá-lo.
Luzia seguia sempre à frente do grupo. Conhecia todo o local e por ali caminhava como se estivesse em nossa colônia. De vez em quando, um grupo de espíritos passava por nós. Ou não nos viam, ou nos viam e não davam qualquer importância ao nosso grupo. Passavam direto, sem nenhuma palavra, sem nenhum gesto que pudesse determinar que nos observavam.
De quando em quando, fazíamos uma pausa para que pudéssemos descansar. O caminhar pesado e a respiração difícil nos extenuavam a musculatura. Parávamos, tomávamos água e logo seguíamos em frente.
Apenas Luzia e os lanceiros que acompanhavam o nosso grupo pareciam não se cansar. Prosseguiam sempre, como se estivessem passeando.
Quando parávamos, os lanceiros se colocavam em posição de guarda em nosso redor, o que nos fazia crer que corríamos algum perigo ali. Luzia, por sua vez, abria alguns mapas e se punha a consultá-los. Media determinados pontos com uma espécie de régua.
Logo nos refazíamos e a excursão seguia rumo ao seu objetivo, para uma idêntica parada logo mais.
Por mais que caminhássemos, parecia que estávamos no mesmo lugar. A paisagem não mudava. Só o cansaço cada vez era maior.
Em determinado momento, chegamos ao alto de uma encosta bastante íngreme. Olhávamos para baixo, mas nada conseguíamos enxergar. Sequer tínhamos idéia da profundidade da topografia daquele local.
A cerração era bastante forte. Tratava-se de uma névoa bastante escura, aparentemente pesada, que não nos permitia enxergar além de cinco metros.
Paramos para descansar novamente. Os lanceiros se colocaram em posição de guarda e, desta vez, Luzia não abriu o mapa, mas apenas desceu a encosta, até onde não pudemos observar. Demorou algum tempo. Quando voltou, reuniu a todos e esclareceu que estávamos quase chegando.
A Colônia do Pó ficava logo depois da encosta. A partir de agora, a vigilância deveria ser redobrada. Deveríamos nos manter permanentemente em oração e sempre juntos.
Nosso grupo se formava de cinco pessoas. Todos estávamos com medo de voltar àquele local onde, por muito tempo, tínhamos nos detido por nossas próprias realizações.
Tereza era uma garota algo tímida e estava um pouco amedrontada com a situação. Aliás, todos estávamos. Ela pouco conversava, e só o fazia para indagar sobre o caminho e sobre o que faríamos quando chegássemos lá.
Márcio já era mais falante. Mostrava ser bastante ansioso, estava um pouco amedrontado e extravasava tudo conversando. Sempre tinha algo a contar que se relacionava com a dificuldade vivenciada no momento, tentando mostrar segurança. No entanto, o que parecia ser segurança, era fuga da realidade. Márcio demonstrava um medo exagerado do momento em que chegaríamos lá. Por mais de uma vez confessou não estar preparado para, de novo, enfrentar aquele local, onde tanto havia sofrido.
Jorge era mais comedido. Falava pouco, mas demonstrava uma segurança quase invejada pelos demais. Como ele era o veterano da turma, víamos nele o nosso futuro, o que nos trazia bastante confiança para continuarmos a batalha que havíamos iniciado.
Karina ainda trazia muitas dúvidas. Não se lembrava muito do tempo em que havia passado por lá. Tinha uma remota lembrança do sofrimento por que passara. Isso a incomodava. Dizia que não sabia muito bem o que iria encontrar lá, e isso lhe causava medo. Medo do desconhecido. Mesmo assim, ela era muito solidária, auxiliava a todos e se preocupava com todos.
Eu, como principiante, não tinha muito que conversar. Nada conhecia do caminho, mas sabia muito bem o que iríamos encontrar na Colônia do Pó. Durante muito tempo tinha-me feito prisioneiro do vício. Iniciara ainda na Terra. Não foram poucos os que tentaram me auxiliar, para que eu modificasse minha vida. Mas nada adiantou. Usando droga como ninguém, fiz da minha vida uma droga. Mas nada percebia. Sempre me achava o maior, o único que conhecia as belezas da vida e a felicidade. Para falar a verdade, eu chegava a sentir pena das pessoas que não usavam droga. Entendia que a vida delas era uma chatice e que nada aproveitavam. E eu não perdia tempo, sempre enfiado na droga, até que um dia meu coração não suportou mais. Era muita droga para aquela máquina já enfraquecida pelo abuso dos últimos anos.
O coração pifou, mas eu fiquei ali. Nem percebi que já não tinha mais um corpo. Também, isso não era importante. O importante era que eu estava sempre junto da turma, e consumindo droga. Para falar a verdade, era até melhor. Depois do meu desencarne, diminuiu muito aquele mal-estar do dia seguinte, único senão que a droga nos proporcionava.
A vida continuava, até que comecei a perceber que as coisas haviam se modificado em minha casa. Meu quarto havia sido desmontado, a decoração havia mudado. Todos os eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos que haviam sumido voltaram para os seus lugares. Até mesmo a aliança de minha mãe ficava dando sopa na pia do banheiro.
Era a minha vez. Com tudo tão fácil, tão à disposição, era só arrumar um comprador e partir para uma noite de arromba.
Mas havia algo mais que estava estranho em minha casa. Minha mãe limpava a casa, fazia o almoço sempre sorrindo e cantando. Já não era mais aquela mulher triste e assustada de tempos atrás. Quando meu pai chegou, tive certeza de que algo havia mudado. Longe daquele mau humor que eu conhecia, ele exibia um largo sorriso nos lábios e entrou em casa brincando com todos e convidou a família para jantar fora.
Meus irmãos estavam no sofá da sala, também aparentemente felizes. Era tudo alegria.
Achando tudo muito estranho, comecei a pensar no que poderia ter ocasionado aquela mudança tão radical em minha casa. Depois de muito pensar, cheguei à única conclusão possível para mim, naquele momento. Enfim, minha família havia me escutado. Descobriram, finalmente, as delícias de uma fileira de cocaína1 ou de uma tragada em um bom cigarro de maconha.2 Só podia ser isso, já que eles estavam tão felizes e cordatos.
Já que haviam entrado na minha, fui conversar com eles. E foi só aí que eu descobri que eles não me ouviam. Agiam como se eu nem estivesse ali.
Fui ficando desesperado e resolvi passar a mão em um aparelho de som para comprar um pouco de coca. Descobri, então, que algo mais estava estranho em minha casa. Por mais que me esforçasse, não conseguia sequer erguer o aparelho de som e fiquei desesperado e saí correndo.
Corri em direção aos meus amigos, já que tinha certeza de que ali a droga não me faltaria. A noite estava apenas começando. Ainda estava todo mundo “de cara”.3 Aguardavam a chegada da droga que um amigo da turma havia saído para buscar.
Tentei conversar com os amigos até que a droga chegasse e percebi que também eles não me ouviam.
Não sabia o que estava acontecendo, não conseguia equilibrar a mente. Como sempre, diante de um momento difícil, precisava desesperadamente de droga.
Já estava quase me debatendo pela falta da droga quando José chegou. Disse que sabia de um lugar onde todos poderiam me ouvir e onde nunca faltaria droga. Convidou-me para acompanhá-lo. Como eu não tinha nada a perder, ou pelo menos pensava assim, acompanhei-o.
Achei o caminho um pouco estranho, mas não demorou muito para que chegássemos à Colônia do Pó.
Num primeiro momento, mal pude observar onde me encontrava. Três mulheres bonitas vieram ao meu encontro e me ofereceram uma fileira de cocaína. Coloquei-me avidamente sobre ela e não parei de aspirar enquanto havia ali um grãozinho.
Agora estava melhor, estava senhor de mim. Naquele dia, tudo e todos haviam conspirado contra mim. Nem mesmo meus amigos de roda haviam me dado bola. Mas, pensava eu, quem usa droga nunca se aperta, sempre encontra uma porta aberta. E mais uma vez entreguei-me às drogas, com a certeza de que era a única coisa capaz de me trazer felicidade.
Foi uma noitada e tanto. Aliás, acho que emendamos várias noites e vários dias sem parar. Tudo era maravilhoso.
Eu não sabia de onde estava vindo tanta droga, mas o que importava isso? O importante é que eu havia encontrado novos amigos que me compreendiam e que sabiam viver, assim como eu. Mas, principalmente, era importante o fato de ter muita droga para ser consumida.
Até hoje, quando isso me vem à memória, não consigo mensurar quanto tempo nós ficamos assim. Poderiam ser dias, meses, anos… Eu perdi completamente a noção do tempo.
Nunca mais me lembrei de voltar para casa ou de reencontrar os meus velhos amigos. Depois daquilo ali, meus velhos amigos pareciam todos “caretas”.
Mas um dia José voltou. Aquele mesmo que me levara para ali e depois havia desaparecido. Disse-me que teria que pagar toda a droga que havia consumido e me apresentou uma conta astronômica. Jamais eu teria condições de pagar aquela conta, disse a ele.
Ele ainda me deu um prazo. Teria um mês para lhe pagar. Mas enquanto não tivesse pagado, não poderia consumir nem um só grama de pó.4 Só de pensar, comecei a ficar desesperado. Foi o pior mês da minha vida. Aliás, não sei se foi apenas um mês, já que para mim pareceram anos.
Eu já me encontrava no mundo espiritual há algum tempo e deveria saber que lá não existe moeda em circulação. No entanto, a necessidade da droga era tanta que eu não tinha condições de raciocinar e perceber a impossibilidade de cumprir o pagamento que me fora exigido. A idéia da droga era fixa em minha mente e não deixava espaço para mais nada.
Eu me debatia pelo chão, machucando-me todo. Monstros enormes corriam atrás de mim e eu corria feito um desesperado. Quando conseguia me livrar de um, outro me aparecia. Outras vezes, eu via uma fileira de cocaína sobre uma pedra. Corria para ela, mas quando estava prestes a alcançá-la, uma rajada de vento espalhava todo o pó. Eu ficava batendo minha mão pelo ar na esperança de recolher um pouco do pó espalhado pelo vento. Como não conseguia, me desesperava. Começava a rolar pelo chão, enfiava os dedos na terra, tentando cavar, não sei o quê, até que me feria todo. Minha roupa já era apenas retalhos que não chegavam sequer a cobrir as partes genitais. Quando a crise estava por se acalmar, um outro monstro tentava me pegar e saía eu correndo de novo.5
Foi assim durante todo o tempo. Nenhum minuto de sossego e, muito menos, de sono. A minha vida se tornou um pesadelo. E cada vez mais acreditava que a felicidade estava na droga.
Quando José voltou, eu estava um farrapo. Mal conseguia parar de pé para conversar com ele. Apresentou-me novamente a conta e eu disse que não tinha arrumado nada, que poderia arrumar, mas que precisava urgentemente de um pouco de cocaína.
Foi aí que ele me propôs um acordo. Eu trabalharia para ele e nunca me faltaria a cocaína de que eu necessitasse. E mais, ele me perdoaria a dívida anterior. Ao fazer a proposta, já tinha um papelote de cocaína na mão. Caso eu aceitasse, disse ele, já poderia consumi-lo ali mesmo. Mas fez questão de me dizer que exigia fidelidade no trabalho, que eu deveria cumprir as ordens à risca e manter-me sempre fiel à organização que ele representava. De outra forma, o acordo se acabaria e eu nunca mais veria um grama sequer de cocaína.
Nem titubeei. Aceitei a proposta sem pestanejar e sequer indaguei em que consistiria o meu trabalho. Não estava em condições de pensar em qualquer outra coisa que não fosse a droga, e pus-me a consumi-la avidamente.
Depois, acompanhei José e minha vida se modificou totalmente.

 

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